
A NR-1 é a norma regulamentadora que organiza o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) das empresas brasileiras. Com a Portaria MTE 1.419/2024, em vigor desde 26 de maio de 2026, os riscos psicossociais passaram a constar de forma expressa no inventário do PGR, com avaliação, plano de ação e acompanhamento, como já acontecia com os riscos físicos, químicos e biológicos.
Na prática, a norma não pede um questionário arquivado. Pede que a empresa identifique onde a organização do trabalho está adoecendo as pessoas, decida o que fazer a respeito e acompanhe se o que fez funcionou. Este texto complementa o nosso guia sobre riscos psicossociais e NR-1 e se concentra na parte que quase ninguém explica, o que vem depois do diagnóstico.
O que a NR-1 passou a exigir sobre riscos psicossociais?
A NR-1 passou a exigir que os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho sejam identificados, avaliados e controlados dentro do GRO, com registro no inventário de riscos e medidas de prevenção no plano de ação do PGR.
A mudança é menos uma novidade do que um esclarecimento. Desde 2022 a norma já obrigava o empregador a gerenciar todos os riscos ocupacionais, e a NR-17 já tratava da organização do trabalho como condição de trabalho. O que a Portaria 1.419/2024 fez foi tirar a saúde mental da zona cinzenta. Sobrecarga, metas incompatíveis com o tempo disponível, baixa autonomia, falta de suporte da liderança, assédio e má gestão de mudanças passam a ter o mesmo status normativo de um ruído acima do limite ou de uma substância tóxica.
Desde quando a nova NR-1 está em vigor?
A nova redação do capítulo 1.5 da NR-1 está em vigor desde 26 de maio de 2026. O prazo original era maio de 2025 e foi adiado uma vez. Em janeiro de 2026, o Departamento de Saúde e Segurança no Trabalho (DSST) descartou um novo adiamento, e seu diretor, Alexandre Scarpelli, lembrou que esses riscos “já deveriam estar sendo gerenciados há muito tempo”.
Ou seja, quem ainda não começou não está em cima do prazo. Está atrasado.
O que são riscos psicossociais no trabalho?
Riscos psicossociais são características da forma como o trabalho é organizado, gerido e vivido que aumentam a probabilidade de adoecimento mental e físico. Não são traços da personalidade de quem trabalha.
Essa distinção muda tudo. Muitas empresas ainda tratam o tema como questão de comportamento individual e respondem com aplicativo de meditação, palestra no Setembro Amarelo ou sala de descompressão. São iniciativas que têm valor, mas não tocam no risco. Risco psicossocial está na estrutura, na meta impossível, na reorganização anunciada por e-mail, no gestor que pune o erro, na cultura que normaliza a sobrecarga. Para entender a origem dessa leitura, vale conhecer a psicodinâmica do trabalho de Dejours e o modelo biopsicossocial.
Como os riscos psicossociais entram no PGR?
Os riscos psicossociais entram no PGR pelo mesmo caminho dos demais riscos ocupacionais. São identificados, avaliados por probabilidade e severidade, registrados no inventário e tratados no plano de ação, com responsáveis, prazos e forma de acompanhamento.
Inventário, plano de ação e acompanhamento
O inventário registra quais fatores de risco existem, em quais áreas, funções ou grupos, e com que nível de risco. O plano de ação define as medidas de prevenção para cada risco priorizado, quem responde por elas e até quando. O acompanhamento verifica se as medidas foram implementadas e se o risco mudou, o que exige medir de novo em ciclos regulares, e não uma vez só.
É nesse terceiro elemento que a maior parte dos programas trava. Risco psicossocial não é estático. Muda com troca de gestão, reestruturação, pico de demanda e crise. Um diagnóstico pontual que vira documento de gaveta envelhece na velocidade do próximo reorganograma.
Aplicar um questionário basta para cumprir a NR-1?
Não. Aplicar um questionário é o começo da identificação de riscos, não o cumprimento da norma. A NR-1 exige que a empresa se responsabilize pelo que encontrou e adote medidas de controle para eliminar ou reduzir esses riscos.
Aqui mora a armadilha do checklist. A pergunta que circula nas empresas é “o que eu preciso preencher para não levar multa?”, quando deveria ser “o que eu preciso mudar para as pessoas não adoecerem?”. Como resume o especialista em SST Rodrigo Vaz, um bom papel não salva ninguém. Mapear e não gerir é compliance de fachada, um documento para mostrar ao auditor e não uma gestão que protege alguém.
Vale também separar mapeamento de pesquisa de clima. Clima mede a percepção que as pessoas têm da empresa. Mapeamento de riscos psicossociais usa instrumentos validados para identificar fatores de risco, localizar onde estão concentrados e ligar cada um a uma ação. Um não substitui o outro.
Por isso a pergunta que deveria orientar qualquer contratação é simples. Depois do diagnóstico, você vai receber um relatório ou um plano?
Por que a NR-1 é uma questão de negócio, e não só de norma?
Porque o custo dos riscos psicossociais já está na operação, com ou sem fiscalização. A multa é o argumento errado. O contingente de auditores fiscais é pequeno diante do universo de empresas brasileiras, e a maioria nunca vai receber uma visita.
O dinheiro sai por outros lugares, todos os meses. Em 2025, o Brasil registrou 546.254 afastamentos por transtornos mentais, alta de 15,6% sobre o ano anterior, segundo a Previdência Social, e o gasto previdenciário com esses afastamentos passou de R$ 30 bilhões. Quando o afastamento tem nexo com o trabalho, ele pesa no Fator Acidentário de Prevenção (FAP), que multiplica a alíquota do RAT por um valor entre 0,5 e 2,0 e incide sobre a folha inteira. Os atestados de menos de 15 dias nem entram nessa estatística, porque o custo fica todo com a empresa. Some a isso o presenteísmo, a sinistralidade do plano de saúde e o turnover.
Tratar a NR-1 como estratégia, e não como formulário, é o que permite usar o diagnóstico para decidir onde investir, em vez de apenas arquivar o resultado. A saúde ocupacional deixa de ser um centro de custo defensivo e passa a ter dado para conversar com a diretoria.
O que o Censo mostra quando o ambiente muda
O dado mais útil para quem vai montar um plano de ação é que os indicadores de saúde mental respondem ao ambiente. O Censo de Saúde Mental Vittude · 2025 · N = 174.475 · 35 empresas mostra isso com clareza.
Entre os 29% de respondentes que experimentaram alta segurança psicológica, a propensão ao burnout foi de 0%. Na média das empresas avaliadas, 45% das pessoas atuam em condições de insegurança psicológica que representam risco psicossocial concreto, e o presenteísmo médio foi de 32%.
Dois achados do Censo orientam a priorização. O primeiro é que a segurança psicológica é o indicador mais correlacionado com todos os demais, e a liderança, que a sustenta, aparece entre os fatores de maior correlação com sofrimento psíquico, burnout, assédio e presenteísmo. O segundo é que entre 78% e 84% das pessoas que presenciaram ou sofreram assédio optaram por não denunciar, o que significa que canais formais, sozinhos, deixam a empresa operando no escuro.
A leitura prática é direta. Se o mesmo indicador muda tanto de um ambiente para outro, o plano de ação precisa mirar o ambiente, e não apenas oferecer cuidado individual a quem já adoeceu. Terapia é parte da resposta, mas não compensa uma organização do trabalho que continua produzindo sofrimento.
Do diagnóstico ao plano de ação: por onde começar
Um plano de ação aplicável depois do diagnóstico costuma seguir cinco movimentos.
- Medir com rigor. Usar instrumentos psicométricos validados, com sigilo e resultados apenas agregados. A empresa tem direito à inteligência sobre os dados, não à intimidade de ninguém.
- Analisar com profundidade. Cruzar o quantitativo com escutas qualitativas, como grupos focais, nas áreas que concentram risco.
- Priorizar e implementar medidas de controle. Rever cargas, metas, fluxos e rituais nas áreas críticas, com responsável e prazo para cada risco.
- Formar lideranças. Capacitar gestores em segurança psicológica, gestão de carga e conversas difíceis, já que é por eles que as medidas chegam ao dia a dia.
- Integrar ao sistema de gestão. Reavaliar em ciclos, de preferência anuais, e acompanhar os indicadores como se acompanham os financeiros.
Conte com tempo. Pela experiência da Vittude, um mapeamento bem conduzido leva no mínimo 90 dias da contratação à entrega do inventário, sem contar as etapas de suprimentos, jurídico e LGPD, que em grandes empresas podem somar meses.
Nenhum fornecedor garante, sozinho, a adequação à NR-1. Ela depende do que a empresa faz com o que mediu. O papel de um bom parceiro é entregar um diagnóstico confiável e ajudar a transformá-lo em decisão.
Perguntas frequentes
O que a NR-1 exige sobre riscos psicossociais?
Exige que os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho sejam identificados, avaliados e controlados no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, com registro no inventário e medidas no plano de ação do PGR.
Desde quando a nova NR-1 está em vigor?
A nova redação, trazida pela Portaria MTE 1.419/2024, está em vigor desde 26 de maio de 2026. O governo descartou novo adiamento em janeiro de 2026.
O que são riscos psicossociais no trabalho?
São características da organização, da gestão e das relações de trabalho que aumentam a chance de adoecimento, como sobrecarga, baixa autonomia, falta de suporte, assédio e má gestão de mudanças. Estão na estrutura do trabalho, não na personalidade de quem trabalha.
Como os riscos psicossociais entram no PGR?
Entram como os demais riscos ocupacionais. São registrados no inventário com seu nível de risco, tratados no plano de ação com responsáveis e prazos e reavaliados periodicamente.
Aplicar um questionário basta para cumprir a NR-1?
Não. O questionário é parte da identificação. A norma pede medidas de controle e acompanhamento, ou seja, um plano executado e revisto em ciclos.
Se a sua empresa já mediu e não sabe o que fazer com o resultado, ou ainda não começou, converse com a Vittude sobre o diagnóstico de riscos psicossociais.
Fontes
- Portaria MTE nº 1.419/2024, que dá nova redação ao capítulo 1.5 da NR-1 (Gerenciamento de Riscos Ocupacionais). Ministério do Trabalho e Emprego, 27 de agosto de 2024
- NR-17 (Ergonomia), Ministério do Trabalho e Emprego
- Censo de Saúde Mental Vittude · 2025 · N = 174.475 · 35 empresas, e Anuário Censo Vittude (ano-base 2025), capítulos 3.6, 3.7, 3.8, 4 e 7
- Previdência Social, afastamentos por transtornos mentais em 2025 (546.254, +15,6%) e gasto previdenciário acima de R$ 30 bilhões
- Declaração de Alexandre Scarpelli (diretor do DSST/MTE), janeiro de 2026, conforme artigo de Tatiana Pimenta na Época Negócios (maio de 2026)
- Rodrigo Vaz, “um bom papel não salva ninguém”, conforme artigo de Tatiana Pimenta na Época Negócios (março de 2026)


