Uma análise só começa no divã?

Uma análise só começa no divã?

O divã chegou às sessões de psicanálise em 1890, quando uma das pacientes de Sigmund Freud o presenteou com a mobília. Segundo ela, para que sua mente fosse analisada era importante que se sentisse relaxada e confortável.

O presente então, bege e modesto, foi revestido com tapetes persas e almofadas de veludo por escolha de Freud. A essa altura, Freud já havia desenvolvido seu principal método, que marcaria para sempre a história da psicanálise: a associação livre, que visa transcorrer os caminhos do inconsciente.

E quanto mais Freud atendia seus pacientes no divã e mais escrevia sobre eles, mais dava-se conta da importância do uso da mobília. Ela funcionava como um dispositivo que compõe e favorece a prática psicanalítica.

O divã como elemento da prática psicanalítica

Nesse sentido, a ausência do olhar e a horizontalidade da postura são meios para que a associação livre decorra sem a rigidez da própria postura. Ou ainda, sem a restrição do olhar e das expressões do psicólogo ou psicanalista. Muitas vezes, elas são capazes de evocar intervindo na espontaneidade de quem escolhe se analisar.

Deitado de barriga para cima, e olhando para o teto ou para a parede à sua frente, cabe ao analisante voltar o olhar para dentro de si. Assim, aproxima-se de suas emoções, sensações e pensamentos mais íntimos e verdadeiros, de maneira com que possam ser verbalizados ou até vividos silenciosamente.
Este dispositivo objetiva a fala sem travas, ou em seu contrário, liberar a fala amordaçada. Assim, dá voz ao que vem à mente, mesmo que em seu início pareça estar fora de ordem ou sentido.

O estado evocado são as vias pelas quais o ego regride ao id – o inconsciente, permitindo com que a rigidez no qual a queixa ou o sintoma se ligam, seja gradualmente diluída para dar vazão à um novo estado.

Uma escolha pessoal e individual

Para além do divã, o essencial para que uma análise se inicie é que haja um desejo de saber sobre si daquilo que ainda não se sabe, mas que é gerador de mal-estar e mantido como sintoma no sentido de um sinto-ma(l) em relação algo conhecido ou desconhecido.

É aí onde se ousa abandonar a necessidade de segurança que a zona de conforto promete e onde há a implicação de cada um, também estabelecida pelo laço entre analista e analisante, que o processo analítico decorre.

Sobretudo, quero reiterar que o uso do divã não é exigência para que uma análise decorra. Algumas pessoas levam tempo para se deitar, enquanto outras preferem seguir o percurso sentados na poltrona. Afinal, o divã, é apenas um dos dispositivos para a condução do processo. Mas, antes de tudo, é preciso que cada um sinta-se confortável à sua maneira.

Finalmente, levar uma vida com mais espontaneidade é uma das saídas para o sofrimento que amordaça e impede de manter relações fluidas consigo, com o outro e com o mundo.


Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *