Transtorno de Tourette o primeiro aluno da classe

O primeiro aluno da classe – Transtorno de Tourette

Como você definiria “tique”? O manual diagnóstico DSM-5 conceitua que “tique é um movimento motor ou vocal repentino, rápido, recorrente e não ritmado”. (2014, p.81)

O que é o Transtorno de Tourette

Tourette é um Transtorno do Neurodesenvolvimento que faz parte da categoria dos tiques e é muito bem retratado no filme dos anos 80, o Primeiro Aluno da Classe (Front of the Class, em seu título original). Baseado numa história real, Brad Cohen nos emociona ao relatar os desafios enfrentados junto com sua companheira inseparável, a Tourette.

Com início na infância ou adolescência, a Tourette é marcada por tiques motores e vocais persistentes que, diante de situações de estresse e ansiedade, se intensificam. Brad apresenta como tique motor o piscar excessivo de olhos e a movimentação desnecessária do pescoço e da face como se jogasse a cabeça para trás. Os tiques vocais de Brad se assemelham a assopros, latido de cão e pequenos sustos.

Os tiques compostos pela Tourette podem ser simples e evoluir para uma composição complexa, podendo o quadro clínico variar de paciente para paciente. Em seu ápice de complexidade, os tiques motores podem ser uma sucessão de movimentos e os tiques vocais se tornarem palavras articuladas, frases curtas, ou mesmo ecolalia e coprolalia¹.

Os autores Hounie e Miguel (2006) relatam que a sintomatologia pode ser flutuante, com períodos de exacerbação e de diminuição.

Agora imagine que você está realizando uma atividade que demanda alta concentração e alguém ou alguma coisa, te interrompe a todo momento. Confuso e estressante, não é? Pois assim é a Tourette: ela distrai o portador da Tourette, e também os que estão compartilhando o ambiente. Neste sentido, podemos de antemão imaginar que uma pessoa com Tourette terá um esforço neurológico maior que a maioria das pessoas ao fazer, por exemplo, uma tarefa de leitura.

O filme Primeiro Aluno da Classe mostra os desafios da pessoa com Tourette em dois momentos da vida: a pré-adolescência e a fase adulta. Brad enfrenta as gozações dos colegas de sala, a impaciência dos professores, a própria sensação de culpa e a falta de suporte da família em função da ignorância. Quando adulto, os problemas se transformam: a insegurança para se relacionar com um amor e a dúvida das pessoas em relação à sua capacidade e adequação profissional.

Trata-se de um transtorno neurológico com base genética e isto significa que os tiques não são realizados pela necessidade de chamar atenção, por isso a dificuldade de controle dos mesmos. Considerando isto, frases como “Pare com isso!” ou “Você tem que controlar!” apenas aumentarão a ansiedade e frustração da pessoa com Tourette.

O nosso personagem contou com o apoio emocional de algumas figuras próximas (mãe e amigo) já que mesmo os profissionais conheciam pouco sobre o assunto. Além disso, Brad demonstra características de personalidade bastante otimista com grande habilidade para educar: ele não apenas era educador (professor), mas sabia que educar pessoas em relação à Tourette era a melhor forma de transformar as pessoas e as relações à sua volta.

Com o avanço das pesquisas, hoje temos maior entendimento da base fisiopatológica da Tourette e o tratamento medicamentoso vem a aumentar o controle dos sintomas, não a cura propriamente dita. Como tratamento coadjuvante, o psicólogo terá papel importante no impacto emocional sofrido pelo paciente, na elaboração de estratégias para lidar com ambiente social e no apoio à educação da Tourette, como nos casos em que o psicólogo irá educar professores acerca do tema.

  ¹ Ecolalia: imitação e repetição de frases e sons involuntariamente. Coprolalia: tendência involuntária de proferir palavras obscenas ou inadequadas, podendo fazer referência a excremento, genitais ou atos sexuais.

HOUNIE, A.G.; MIGUEL, E. Tiques, Cacoetes, Síndrome de Tourette: Um manual para pacientes, seus familiares, educadores e profissionais de saúde. Porto Alegre: Artmed, 2006.

Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5 / [American Psychiatric Association; tradução: Maria Inês Corrêa Nascimento … et al.]; revisão técnica: Aristides Volpato Cordioli… [et al]. – 5. Ed. – Porto Alegre: Artmed, 2014.


Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *