Reabilitação neuropsicológica

Reabilitação neuropsicológica em tempos de pandemia

Em função da pandemia muitos idosos e pacientes com lesão cerebral deixaram de frequentar os centros de reabilitação neuropsicológica/cognitiva. Porém, é fato que a diminuição dos exercícios, bem como das práticas exercidas na reabilitação trazem prejuízos à medida que o tempo vai passando e continuamos sem previsão de retorno.

Familiares e profissionais sabem que o processo de reabilitação se dá pela repetição das práticas, bem como por avaliações constantes destas para aquisição de novas práticas. Em casa, como posso ajudar?

Acredito que aqui necessitaremos de algumas colocações importantes, e talvez a pergunta mais importante seja: como posso não atrapalhar?

Reabilitação neuropsicológica em isolamento social

É natural dentro das famílias de pacientes com lesão adquirida que os parentes próximos costumem “conferir” se o familiar está ou não respondendo de forma adequada às informações. E isso se dá em forma de questionamentos do tipo “que cor é essa?”, “qual o meu nome?”, “vamos, tente de novo” e por aí vai. NÃO FAÇA ISSO!

Apesar de acompanhar os atendimentos e muitas vezes perceber que os profissionais repetem, ou solicitam a repetição do que foi dito, isso ocorre em momentos específicos. Qual o problema de fazer isso em casa?

Corre-se o risco de aumentar os níveis de ansiedade, bem como de colaborar para quadros depressivos a depender do grau de comprometimento do paciente e área afetada. Isso, porque, quanto maior a compreensão do paciente acerca das limitações adquiridas com a lesão, maior a compreensão dele sobre as suas limitações. Diante disso, sentir-se incapaz de responder a uma pergunta “básica” tende a interferir no humor destes, acentuando a probabilidade de quadros depressivos e ansiosos.

Estratégias compensatórias

Outro fator relevante a ser considerado está relacionado com as estratégias compensatórias, que são comportamentos ou falas que os pacientes desenvolvem para não demonstrar que não sabem responder.

Isso pode ocorrer da seguinte maneira: o familiar pergunta, o paciente sorri, conta uma piada, muda de assunto, entre outras estratégias que podem envolver agressividade, irritabilidade, entre outras respostas. Diante destas respostas, os familiares tendem a acolher aquele comportamento. E vida que segue!

Qual o problema disso? Os familiares tendem a se referir ao paciente como alguém que é agressivo. Surgem falas como “ele não era assim”, “vive irritado, não posso falar nada”, entre outras recorrentes nos atendimentos em reabilitação.

Essas falas tendem a criar o afastamento familiar e até mesmo a sobrecarga emocional do cuidador principal, trazendo além de prejuízos aos pacientes, o adoecimento familiar.

Reabilitação neuropsicológica de uma lesão encefálica. Como proceder em casa?

Estando todos mais atentos às nossas posturas diante dos nosso familiares que sofrem de um acometimento neurológico, podemos contribuir de formas mais efetivas para que o cuidado com quem amamos não se torne algo desgastante e inquietante.

Tenho um familiar que sofre de uma lesão encefálica adquirida ou orgânica e gostaria de saber como posso ajudar. Então, vamos lá.

Primeiramente é importante saber se este paciente já está ou não em acompanhamento na área da Reabilitação Neuropsicológica / Cognitiva.

Se este paciente estiver em acompanhamento, naturalmente que há um leque de orientações que já foram realizadas, necessidade de adaptação, rotinas e tudo mais. Coloque em prática.

A colaboração na reabilitação pela família

Digo isso, porque muitas pessoas sofrem de “amnésia de consultório”, e ao sair do consultório se esquecem completamente das orientações, deixando para a próxima semana confirmarem.

E assim se passam muitos anos em acompanhamento e nada de colocar em prática. Se for necessário, ao ir à consulta leve um caderno para anotar as orientações realizadas. Em geral, os profissionais que atuam nos centros de reabilitação costumam entregar orientações por escrito aos familiares, mas não é regra, então seja proativo no atendimento.

Quando eu digo “coloque em prática” é comum acompanhar familiares que não sabem nem por onde começar. Assim, ou eles entram na “amnésia de consultório” ou acham muito difícil e entram num processo de oposição.

Dizem internamente muitas vezes “esse psicólogo não sabe como é a realidade lá em casa”. Mas atenção: somos parceiros, então caso alguma dessas situações aconteça, dividam com o psicólogo ou profissional que acompanha a reabilitação; só assim poderemos fazer um bom trabalho.

Retomando, caso haja um acompanhamento em andamento, entre em contato com os profissionais responsáveis para orientações de como ajudar seu familiar. Em geral os profissionais estão disponibilizando canais (telefone, e-mail, entre outros) para realizarem ao menos algumas orientações que podem colaborar.

Agora, caso seu familiar não esteja em acompanhamento em nenhum centro de reabilitação, e precise de auxílio no dia a dia, farei algumas orientações.

Orientação para reabilitação neuropsicológica em casa

Pense na sua rotina e na rotina dos seus familiares, pense nas necessidades que estão se apresentando. Diante da identificação destas necessidades, trace pequenas metas para o paciente e para o familiar. Trabalhe com rotinas visíveis, lembretes se for necessário, listas, alarmes, entre outras formas de auxiliar o paciente a executar pequenas tarefas na casa.

Os lembretes e dicas visuais funcionam de forma a diminuir a ansiedade e a frustração dos pacientes e familiares, uma vez que os pacientes se acostumam a ler ou a seguir dicas visuais. Por sua vez, os familiares não precisam ficar o tempo todo realizando alertas verbais, o que se torna cansativo e estressante para ambos.

Uma outra possibilidade é estabelecer horários de tarefas, tais como escrever receitas, letras de músicas, tocar um instrumento, leitura de jornais ou trechos de livros. Estas são formas de se alimentar as partes ativas do cérebro. Outras possibilidades são cuidar de uma horta, jardim, realizar alguma atividade manual, desde colagem, artesanato, entre outros.

Na internet existem várias atividades que podem ser realizadas. O que é muito importante neste processo é realizar algo que trabalhe as funções cognitivas de uma forma divertida, afinal quando nos divertimos somos mais capazes de reter os conteúdos.

Concluindo, se você leu o texto todo com atenção percebeu que o importante na reabilitação é a sintonia com aquele atendemos. Essa sintonia possibilita identificar as motivações dos pacientes e, assim, propor atividades que tenham a ver com o paciente e não com o que achamos que ele precisa.

Lembre-se que os ganhos são muitas vezes quase imperceptíveis, então trabalhe com metas curtas, e bem definidas, sempre reforçando os comportamentos e ganhos alcançados, e pontuando de forma breve o que ainda precisa se trabalhado (se houver necessidade). Atenção cuidador: você não é terapeuta, por isso pegue leve com você, e aproveite para se divertir também.


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