Quando o amor vira vingança

Quando o amor vira vingança

O tema da separação amorosa desperta, na maioria das vezes, grande interesse e curiosidade, uma vez que a maioria dos seres humanos já sofreu a dor de uma perda amorosa. No entanto, tal sofrimento repercute de maneira diferenciada na vida de cada indivíduo.

Para Ferreira (2010), os seres humanos costumam considerar o amor como um dos caminhos a serem percorridos na busca pela felicidade. Isto ocorre pelo fato de visualizarem-no como uma experiência na qual se pode obter a mais intensa sensação de prazer. No entanto, para a autora, essa é uma experiência fracassada, pois é justamente quando se ama que o ser humano está mais vulnerável ao sofrimento, uma vez que a perda do objeto amado ou do seu amor causa infelicidade.

Para Bauman (2004), a aceitação do amor ao próximo é considerada como originadora da humanidade e a passagem decisiva do instinto de sobrevivência para à moralidade. A partir disso, segundo o autor, a sobrevivência de um ser humano passa a ser a sobrevivência da humanidade no humano.

Freud (citado por Bauman, 2004), afirma que a invocação de “amar ao próximo como a si mesmo” é um dos preceitos fundamentais da vida civilizada, contrariando, segundo ele, o tipo de razão que a civilização promove: a razão do interesse próprio e a busca da felicidade. Com isso, aceitar esse preceito é um ato decisivo por meio do qual o ser humano rompe os impulsos e predileções considerados naturais.

No entanto, Bauman (2004) aponta que os caminhos dos instintos de sobrevivência e do amor-próprio podem correr paralelamente, mas também em direções diferentes. Segundo ele, o amor-próprio pode ser contra a continuação da vida, de modo que leve o indivíduo a rejeitar uma vida que não se ajusta aos padrões, produzindo a crença de que não se vale a pena viver. Para ele, o que os humanos amam em seus amores-próprios são os “eus” apropriados para serem amados. Assim, o que se ama é o estado ou a esperança de ser amado, de ser digno de amor.

Amor-próprio e autoaversão

Em outras palavras, seria preciso ser amado para se ter amor-próprio, de modo que a recusa desse amor alimentará uma autoaversão. Com isso, o autor conclui que a afirmação “amar ao próximo como a si mesmo” evoca o desejo do próximo de ter reconhecida, admitida e confirmada a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não descartável.

 

Sob esse ideia, Gil (2004) acredita que não existem unidades visíveis que permitam a equivalência no domínio dos afetos, simplesmente, exige-se mais do que se dá e recebe-se menos do que se esperava, afirmando que este paradoxo das trocas afetivas levanta o seguinte questionamento: “Quem me retribuirá alguma vez, exatamente, o amor que eu ofereci gratuitamente?” (p.84). Com isso, para o autor, primeiramente brota o amor e este depois degenera-se em inveja, a responsável por canalizar as pulsões mais profundas, localizando-se entre o consciente e o inconsciente do indivíduo. 

Diante disso, acredita-se que é por meio desse desequilíbrio das trocas afetivas que resultam as piores consequências. O amor de inveja torna-se ódio de inveja, uma vez que o outro não cedeu em devolver o quantum absoluto que o invejoso pôs na sua paixão de possuir, aceitando imolar-se. Ainda segundo Gil (2004), a inveja está presente em todas as sociedades e apresenta-se como uma forma de violência privilegiada, pois é uma justificativa para fazer mal ao outro. Deste modo, ele aponta que quanto maior for o ressentimento, maior também será o esfriamento afetivo, tornando a pessoa em um indivíduo perigoso que fará da sua vida uma vingança. Com isto, um ser humano ressentido é uma pessoa com objetivo.

No entanto, o texto aponta para o fato de que, ao projetar-se sobre o outro, a inveja produz uma espécie de efeito de ricochete, deixando o invejoso também prisioneiro da inveja lançada, a qual terá sempre uma dívida a cobrar ao invejado, pois o ressentimento é uma prisão.  Com isso, o esquema proposto por Gil (2004) é: amor -> dor de não-reciprocidade afetiva -> sofrimento-ressentimento -> inveja -> vingança (p.91)

Seres humanos e suas interações

Segundo Arendt (2001), a ação e o discurso são os modos pelos quais os seres humanos se manifestam uns aos outros, não como objetos físicos, mas enquanto homens. É por meio das palavras e atos que os indivíduos se inserem no mundo humano e mostram quem são, revelam ativamente sua identidade. De acordo com a autora, essa qualidade reveladora do discurso vem à tona quando as pessoas estão com as outras, ou seja, por meio da simples convivência humana, do encontro.

Esse encontro com o outro é pensado por Lévinas (1993 citado por Gomes, 2007) como uma relação traumática na qual a presença desse outro demanda, a partir do seu rosto, uma resposta entendida como responsabilidade pelo outro. A partir disso, ele define o caráter ético do conceito de rosto, o qual fundamenta-se na compreensão de que seres humanos são vulneráveis uns aos outros de modo que a simples presença de outrem requer um olhar sobre ele, um acolhimento. 

Diante disso, o homem aparece como um ser sócio-histórico constituído e constituidor do momento em que vive, marcado por normas, modos de pensar e agir. Este, ao se relacionar com o outro levará todo este material histórico-cultural para a relação e vice-versa. Assim, é possível perceber o quanto o contato com o outro influencia a vida de cada indivíduo. É por meio desta relação agonística que nasce a dimensão da produção de subjetividade, pois aponta para a emergência de novos sujeitos sociais (Gomes, 2007).

Deste modo, acolher o outro em sua alteridade apresenta-se sempre como um risco para o indivíduo, uma vez que é uma relação imprevisível. Com isso, assim como propõe o filme “Um conto chinês”, às vezes, é preciso uma vaca cair do céu para que se perceba o quão absurda e imprevisível a vida é.

Referências bibliográficas:

Arendt, H. (2001). A Condição Humana (10ª ed., R. Raposo, Trad.). Rio de Janeiro: Forense Universitária.

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

FERREIRA, Elen de Paula. A separação amorosa: uma abordagem psicanalítica. Psicanálise & Barroco em revista v.8, n.1: 56-97, jul.2010. Disponível em: http://www.psicanaliseebarroco.pro.br/revista/revistas/15/P&Brev15Ferreira.pdf. Acesso em: 12, maio de 2011.
Leia mais em: 
http://www.webartigos.com/artigos/como-psicanalise-e-direito-podem-se-articular-frente-a-separacao-judicial-e-a-guarda-dos-filhos/85953/#ixzz3C7IED3OE

GIL, José. Metafenomenologia das invejas: magia e política. (in).LINS, D. e PELBART, P.P. (orgs.) Nietzsche e Deleuze: bárbaros e civilizados.2004.

GOMES, Lívia Godinho Nery  and  SILVA JUNIOR, Nelson da.Experimentação política da amizade: alteridade e solidariedade nas classes populares. Psic.: Teor. e Pesq. [online]. 2007, vol.23, n.2, pp. 149-158. ISSN 0102-3772.  http://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722007000200005.


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