A situação em que nos encontramos hoje traz um grande desafio: pela primeira vez na história da humanidade estamos todos enfrentando simultaneamente uma pandemia. E o que a Psicanálise teria a contribuir nessa pandemia de Covid-19?
No nosso país, há 100 anos não temos uma grande doença como essa a nos acometer. Apesar de todo seu caráter coletivo, de estarmos passando por um choque abrupto, todos ao mesmo tempo, isso não significa que teremos os mesmos recursos e apresentaremos os mesmos tipos de resposta.
Isso não garante também que, mesmo estando acompanhados, não possamos experimentar temores ou até mesmo a solidão. Parece que nosso modo de lidar com a vida se coloca à prova, e nesse momento nossos sintomas podem aflorar, se destacar, o que pode nos causar problemas.
Absorvendo conceitos da psicanálise durante a Covid-19
Por outro lado, algumas pessoas continuam trabalhando, muitos estão tendo perdas financeiras, alguns estão no grupo de risco, outros estão longe de seus familiares, alguns passarão por isso tudo sozinhos, alguns considerarão suas casas como refúgio, outros se sentirão presas em casa.
Nesse contexto, as relações familiares podem ser fontes de ansiedade (até porque estão longe de serem harmônicas). Assim, alguns sentirão a cobrança de permanecerem produtivos em condições muito díspares àquelas a que estavam acostumadas, ou terão que transmitir segurança a outras pessoas, mesmo imersos em incertezas.
Outra questão muito relevante no momento é pensarmos no luto que a pandemia nos coloca. Poderemos perder não só pessoas próximas como também nossa própria visão de mundo e planos. Mudanças na carreira podem não acontecer, as relações familiares podem se modificar, e alguns enfrentarão separações, divórcios.
Tudo isso nos exige um trabalho psíquico grande, e nesse momento estamos mais limitados quanto às possibilidades de enfrentamento do que aquelas que tínhamos antes.
Algo da ordem do inexorável se colocou para todos nós, e que recursos temos para lidar com isso?
O momento se abre para nossa reflexão, estamos todos com nossa vida interrompida em algum grau. Ou seja, as incertezas quanto ao futuro se apresentam, e não temos mais a ilusão de controlarmos o nosso tempo e a condução de nossas vidas integralmente.
O simbolismo da Covid-19 para a psicanálise
Diante do sofrimento que tais questões podem trazer a um sujeito, é importante dizer que ele não precisa passar por isso sozinho. Pode ser que se coloque aí a necessidade da busca por um tratamento. Para a psicanálise essa via está no simbólico, inclui a palavra.
Sabe-se há bastante tempo que falar pode produzir bons efeitos para o sujeito. Historicamente a medicina sempre destinou grande valor à fala em sua clínica. Apesar de não ser essa uma descoberta da psicanálise, foi Freud quem deu lugar de destaque a ela na criação da psicanálise.
No início de sua clínica, uma de suas pacientes intitulou o tratamento recebido como “talking cure“, uma cura pela fala. Uma prática que se fundaria no fato mesmo de que as palavras podem ter efeito até em campos que lhes parece escapar, como nos nossos atos, no nosso corpo, nos sintomas e nos sonhos.
Como método, a psicanálise se utiliza da associação livre. Pede-se que o paciente fale o que lhe vem à mente, deixando de lado julgamentos e pré-concepções.
Quando alguém endereça sua fala a um analista não raro, percebe que algo ultrapassa sua expressão intencional e tem assim a sensação de que algo corre por se dizer.
O sujeito se sente atravessado, ultrapassado por algo que desorganiza a sua pretensa ordem. E pode se dar conta de alguma coisa que está ali e se faz presente nele, mas que ele próprio ignora.
Se fazendo ouvir em meio à Covid-19
O inconsciente para a psicanálise está estruturado como uma linguagem e se faz ouvir (em um trabalho de análise) na fala.
Cabe aqui ressaltarmos que é pela presença e escuta de um analista que tal desvio no discurso é recolhido como não arbitrário. A aposta da psicanálise é que o paciente possa se encontrar com o que fala e com o que se diz em sua fala.
A linguagem não é um meio. Ela nos modifica, instaura regras e constitui a forma de nos dirigirmos ao outro e ao mundo. O que o analista escuta é o que se enuncia na fala do paciente, apesar dele mesmo.
É o próprio paciente que pode dizer alguma coisa acerca de seu sofrimento singular, este não está alhures, tampouco seu sentido. Somos seres de linguagem, nos constituímos nela e é por ela que podemos nos desvencilhar de alguns nós e criarmos novas direções.

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