Você já parou para pensar qual motivo te leva a fazer sempre aquela mesma coisa, mesmo que você diga para si mesmo que não queria ter feito? Já percebeu que os seus relacionamentos amorosos não são como você gostaria, mas que há algo de semelhante que se repete em todos eles? Já pensou que às vezes parece mesmo é que você gosta do sofrimento? – e a música sertaneja está aí para provar que audiência para “sofrência” não falta. Pois então, este texto nos propõe a pensar nestas repetições nas quais acabamos “caindo sem perceber”.
Lembrando que poder formular uma questão sobre os motivos de nossas repetições e engajar-se na busca por possíveis respostas, eventualmente pode contribuir na abertura de algumas portas para que um novo caminho possa ser trilhado. Considerando que muitas pessoas acabam tornando-se reféns de si mesmas, pois não percebem o quanto ao longo da vida permanecem tropeçando nas mesmas questões, conseguir perceber isso e permitir-se parar para pensar sobre, já é um grande avanço. O que se descobre, na maioria das vezes, é que estas repetições dizem muito sobre o sintoma de cada sujeito e sobre a maneira como ele se posiciona no mundo.
Por que as repetições acontecem?
Freud (1914), considerado o fundador da psicanálise, nos alertou através de seu texto Recordar, Repetir e Elaborar, que aquilo que não queremos lembrar, acabamos repetindo. Ele descobriu isso, ao observar que a maneira como seus pacientes se comportavam em análise, dizia de lembranças que não eram possíveis de serem evocadas. Dessa forma, as recordações faziam-se presentes pela via do ato, através das repetições. Sua ideia era de que a partir do tratamento psicanalítico e da transferência ali constituída, o paciente lançasse mão da repetição e da recordação para elaboração de seu sofrimento psíquico.
Recordar é importante, pois possibilita que pensemos o passado a partir do presente, e consequentemente, a partir de um outro olhar sobre as experiências vividas. A própria história de nosso País está aí para nos mostrar que quando não refletimos sobre nossa origem, sobre nossos antepassados, acabamos, enquanto sociedade, repetindo os mesmos horrores de outrora. E, na maior parte das vezes, isso acontece sem nos darmos conta de nossa implicação para esta perpetuação. Simplificando a questão, o que em um lugar não está bem resolvido, sempre acabará repercutindo em outro, acarretando ainda mais sofrimento.
Essa ideia um tanto ilusória que alguns empreendem, de viver só de presente, não cola para a psicanálise, porque o nosso inconsciente é atemporal. E o que isso significa? Que ele não tem nenhuma referência de tempo. Não por acaso, escutamos pessoas vivendo o efeito de experiências de 10, 20, 40 anos atrás, como se fossem extremamente atuais.
A repetição se faz presente de diferentes formas em nossas vidas. Seja através de hábitos, manias, comportamentos aos quais estamos acostumados, repetições que se perpetuam quase como uma economia de pensamento; você sabe que pode mudá-las, mas na maioria das vezes acaba ficando com preguiça de empenhar-se para isso. Seja através de experiências traumáticas que estão para além da capacidade de representação de nosso psiquismo e por isso permanecem produzindo um intenso sofrimento.
Sofrimento como um sintoma
Neste texto, no entanto, escolhi abordar sobre a face da repetição que revela algo do ser do sujeito. Repetições que guardam algo de enigmático, que fazem com que nos questionemos sobre nós mesmos, sobre nossas insistências na busca de certos padrões que nos fazem sofrer. Nesse sentido, chegamos próximos a algo muito importante para a psicanálise, que é o sintoma. O entendimento que a psicanálise tem acerca do sintoma é bastante singular. Ao contrário de terapias medicamentosas, que o veem como um desconforto que precisa ser silenciado, a psicanálise se propõe a escutá-lo.
E por que escutar um sintoma? Porque só assim conseguiremos fazer com ele algo para além de uma repetição sintomática, mas também, porque os sintomas nos dão pistas que nos levam ao nosso desejo. Desejo aqui como aquilo que existe de mais visceral, que dá sentido pra nossa vida, que nos traz prazer, e que não é assim tão simples de alcançar.
O sintoma não é apenas sofrimento, ele existe também, pois tiramos dele uma certa parcela de satisfação. Não fosse assim, não seria tão difícil mudar algumas coisas em nossas vidas. Um sintoma, segundo Freud (1916/1919), não deixa de ser uma solução que cada um conseguiu criar para si, para obter prazer através de algo que de outra maneira não seria possível, em função da repressão – tudo isso, é claro, à nível inconsciente.
O sofrimento como uma fonte de prazer?
Falando em inconsciente, ao descobri-lo, Freud evidencia as aparentes contradições do sujeito. Sempre haverá uma parte de nós da qual não temos total controle, conhecimento e acesso – uma parte que nos escapa. E por isso é tão estanho quando nos damos conta que certas coisas – bizarras, inadmissíveis, fora do padrão – são uma tremenda fonte de prazer para nós. Lembrando que o que é fonte de prazer para o inconsciente, pode ser fonte de desprazer para o consciente e vice-versa.
Para complicar ainda mais, o “eu” é sempre território de disputas, internas e externas, entre os nossos ideais e os ideais dos outros. O que desejamos está sempre sendo posto em xeque com o que a sociedade impõe que deveríamos desejar. É um jogo complexo. É como se houvesse o que você realmente quer, o que você acha que você quer, o que você acha que o mundo (seus pais, sua/seu chefe, sua/seu companheira(o)) quer de você e o que você consegue conciliar entre estes âmbitos e bancar para si e para os outros.
E assim, ao longo da vida, agimos conforme conjuntos representacionais que construímos inconscientemente e que temos como modelo para nossa relação com o mundo. Existem pessoas que só se envolvem em relacionamentos amorosos nos quais são tratadas com desprezo. Há aquelas que estão sempre em busca de aprovação e acabam caindo nos mesmos dilemas em função disso, ou até mesmo as que só conseguem ter prazer em uma relação sexual quando não estão envolvidas emocionalmente.
Experiências individuais
Cada um irá construir uma montagem sintomática muito particular para si e isso tudo está relacionado com sua história, com suas relações primordiais, com o olhar que o constituiu, com a imagem que construiu sobre si, com suas crenças sobre o mundo, e por aí vai. Essa montagem não é algo consciente, mas diz de como fomos “aprendendo” a ser.
Dito isto, atribuir ao azar, a forças mágicas, ao outro, a responsabilidade pelas nossas repetições e mazelas, não irá nos levar muito longe. Muito pelo contrário, apenas contribuirá para que sigamos como os cachorros, quando correm inutilmente atrás do próprio rabo. Interessante pensar que para a psicanálise nascemos objetos na mão do outro, esta é a nossa primeira posição. Não fosse o bebê manipulado (no sentido do manejo de seu corpo que é feito pelo outro), cuidado, alimentado, por um outro humano, ele sucumbiria. No início da vida, dependemos que outro faça algo por nós.
E não por acaso, observamos o quanto é comum atualmente, as pessoas buscarem isso em uma terapia inclusive; que o outro resolva os seus problemas, lhe dê a resposta, o remédio, a cura, faça algo por ele. Depositar em um agente externo, tanto a causa quanto a solução de nossos problemas, só contribui para a crença de que nada do que faremos trará efeitos, de que não depende de nós. É também sobre responsabilização que se fala em psicanálise. Sobre a difícil tarefa de assumir o desejo que nos habita, por mais estranho que ele possa parecer.
Refefências:
FREUD, S. (1916/1919), Conferências introdutórias de Psicanálise. Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Parte III, vol. XVI, Rio de Janeiro: Imago, 1986.
FREUD, S. (1914), Recordar, repetir e elaborar (Novas recomendações sobre a técnica da Psicanálise II). Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. XII, Rio de Janeiro: Imago, 1980.

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