perda gestacional

Vivências maternas após perda gestacional

A morte de um filho inverte as expectativas das perdas esperadas na vida – morte dos pais, dos mais velhos –, deixando os pais perdidos, sem referências temporais. A morte fetal, ou seja a perda gestacional, traz consigo a contradição da chamada ordem natural das coisas, dos fatos da vida e o paradoxo entre vida e morte.

 uma grande importância de conhecer a dinâmica emocional das mulheres que vivenciaram a experiência desta perda, pois a elaboração do luto frente à morte de uma criança, antes de seu nascimento, tem uma dinâmica intrincada e peculiar. 

A gravidez é um evento complexo que contempla mudanças de diversas ordens. O período da gestação é repleto de sentimentos intensos que podem dar vazão a conteúdos inconscientes da mãe. A relação mãe-filho começa desde o período pré-natal, e se dá, basicamente, através das expectativas que a mãe tem sobre o bebê e também da interação que estabelece com ele. Algumas expectativas se constituem sobre o bebê imaginário que cada mãe constrói que envolvem o sexo do bebê, nome e as características psicológicas que são a ele atribuídas.

Durante a gestação, os pais podem ter três imagens do seu filho: o bebê imaginário, bebê fantasmático e o bebê real. O bebê imaginário é aquele idealizado, uma combinação de impressões e desejos derivados da própria experiência da mãe. O bebê fantasmático remete ao desejo da mãe, quando criança, em relação aos seus desejos de ser mãe. É ligado a conflitiva edípica que a mãe, quando criança, estabelecia com seu pai. É resultante de uma função inconsciente. O bebê real é aquele que nasce (ou que morre).

O processo de constituição da maternidade inicia-se muito antes da concepção, ele inicia a partir das primeiras relações e identificações da mulher, passando pela atividade lúdica infantil, a adolescência, o desejo de ter um filho e a gravidez propriamente dita. Contribuem também para este processo, aspectos transgeracionais e culturais, associados ao que se espera de uma menina e de uma mulher, tanto dentro da família como numa determinada sociedade .

A gravidez é um momento de importantes reestruturações na vida da mulher e nos papéis que esta exerce. Durante esse período ela tem que passar da condição de filha para a de mãe, o que a faz reviver experiências anteriores, além de ter de reajustar seu relacionamento conjugal, sua situação socioeconômica e suas atividades profissionais.

Em uma leitura psicanalítica, a gravidez é uma experiência regressiva, na qual a mulher vive intensos sentimentos de desamparo e ansiedade, demandando proteção e amparo. A confirmação da gravidez, sobretudo quando ela foi desejada pelos pais, gera sentimentos de plenitude. A gravidez exige, para a mulher, a reestruturação e o reajustamento de sua vida, a fim de que a gestação transcorra de modo saudável tanto para a mãe como para o bebê. 

Nos casos de morte fetal, a angústia se expressa por aquilo que podemos denominar de repetidas provas de realidade. A mulher busca rememorar, repetidamente, o acontecimento, numa tentativa de “apagar” da memória tudo o que de ruim aconteceu e mudar o rumo da experiência. É importante que a mulher possa vivenciar este momento de modo lúcido, para facilitar a reorganização emocional, integrando à sua vida aquela perda real como se fizesse parte de sua própria história vital.

A morte de um filho antes de seu nascimento costuma representar certa impossibilidade de transcendência de expectativas naturais. A construção de vínculos afetivos fortes e de recordações de convivência mútua fica impossibilitada, uma vez que lembranças não podem ser evocadas posteriormente e a ausência da criança é profundamente sentida, como se fosse retirada parte do corpo.

Pode-se classificar esta perda em estágios: negação e isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação. Entretanto, o luto pode ser entendido não é apenas como um processo de sucessivas fases, mas também um vai e vem de reações e sentimentos que se alternam de diferentes maneiras em cada situação de perda. A morte de um filho antes ou logo depois do nascimento rompe com a ordem natural da vida, interrompendo, juntamente, sonhos, esperanças, expectativas e as esperas existenciais que normalmente são depositados na criança que está por vir. 

É importante que as famílias que perderam seus bebês se apropriem da situação que vivenciaram, oportunizando em um primeiro momento o espaço de fala para aos poucos assimilar e aceitar. Entende-se que em um primeiro instante há um momento de choque e mesmo não sendo a hora ideal para tomar decisões, é a hora de entrar em contato com alguns procedimentos.  Com isso, poderão fazer escolhas de acordo com seus próprios limites . Essa compreensão reforça a necessidade de existir profissionais capacitados que proporcionem esses espaços e o protagonismos dessas pessoas.

O psicólogo é o profissional que tem preparação para viabilizar a expressão do luto. “A psicologia entende que para dissipar a dor psíquica de uma perda, é necessário que ela seja dita, vivida, sentida, refletida e elaborada, mas nunca negada”. Contudo, há um tempo para todo esse processo se constituir que não pode ser apressado nem pela família e nem pela equipe de saúde. Na verdade, o tempo tem que ser usado para melhorar a capacidade do enlutado de elaborar a perda do bebê.

Um dos papéis da psicologia diante de intercorrências como o luto fetal é desafiar a mentalidade da morte como tema interdito, buscando identificar as vulnerabilidades e alto risco dos pais que perderam seus filhos. Cabe a psicologia ajudar com que os pais e familiares se apropriem da situação que estão vivendo, para posteriormente conseguirem falar e aos poucos assimilar, e bem posteriormente aceitar .

Rituais fúnebres ajudam no processo de luto, pois a recuperação é centrada na aceitação, e o velório permite que as pessoas se despeçam e que os enlutados sejam considerados como tal. Abordagens terapêuticas que possibilitam ajudar os pais no processo de perda do filho consistem em permitir que os pais visitem o recém-nascido, toquem-no, caso queiram, e que recolham lembranças possíveis. Essas são estratégias que favorecem a saúde psíquica de muitos casais, objetivo primordial da psicologia.

Conhecer os aspectos a serem enfrentados nestas situações traz a possibilidade de prestar um melhor auxílio e acompanhamento, o que se constitui em ação preventiva quanto ao desenvolvimento de dificuldades emocionais posteriores. Percebe-se, assim, a importância do reconhecimento e da oportunidade de falar sobre a perda do bebê, o que reflete num melhor entendimento e enfrentamento da perda, pois foram acolhidos e reconhecidos em sua dor num momento essencial.


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