Pandemia e seus desdobramentos_ quem é você em 2020_

Pandemia e seus desdobramentos: quem é você em 2020?

Você lembra como foi o seu início de 2020? Tinha muitos sonhos e metas para alcançar ao longo do ano? O fato é que, independente dos projetos de cada um, não imaginávamos o que estaria por vir enquanto planejávamos o carnaval, as férias, viagens em família ou até mesmo os esperados dias de descanso total para focar nas metas para o ano que chegava.

Algumas notícias já anunciavam que havia um tipo de vírus incógnito e ameaçador que poderia atravessar fronteiras e se alastrar pelo mundo. Porém, ainda era distante da nossa realidade e pensávamos que não tomaria proporções tão expressivas. Afinal, é menos doloroso negar o que nos coloca em risco do que encará-lo de frente, não é mesmo? É uma opção bem mais sedutora, que é seguir tocando a vida como se o perigo não fosse real, tampouco presente.

Foi então que, a partir de março, quando a pandemia fechou com força a porta da nossa casa, nos lançando para dentro, é que começamos a entender a situação delicada e grave que estávamos vivendo. Havia um caminho totalmente desconhecido a ser percorrido. Começamos uma travessia sem saber o que nos esperava no final e se iríamos completá-la com êxito.

O vírus lá fora e o (re) encontro consigo mesmo

Com a ameaça à vida andando pelas ruas sem escolher a quem atingia, fomos obrigados a redescobrir nossa própria casa e as múltiplas possibilidades de ocupar e transformar seus espaços. Assim também aconteceu com nossos espaços internos e com nosso corpo. Retornamos o olhar a nós mesmos e àqueles que vivem ao nosso lado.

Voltamos as atenções para tudo que deixamos de lado ou em segundo plano ao longo de anos, em função de rotinas intensas de trabalho fora e dentro de casa. Questões familiares, projetos profissionais, financeiros, relações afetivas, lutos, relacionamentos mal resolvidos, conflitos interpessoais, amizades enfraquecidas, amores que se perderam no percurso…tudo isso e outros incontáveis “problemas de cada um” que saíram de onde estavam abafados e escondidos e exigiram a devida atenção. O famoso “sem tempo” tornou-se “a hora é agora”.

Enquanto um vírus letal exibia-se lá fora (e segue o fazendo), nossos fantasmas davam as caras aqui dentro (de casa, de nós). Com isso, além do estranhamento inicial de se ver dentro de casa sem poder ir e vir livremente, aconteceram descobertas positivas, como potencialidades, talentos esquecidos, novos gostos musicais, velhos livros, amizades fortalecidas. Tiveram, também, rompimentos de laços para alguns e retomada de antigos amores para outros. Você esteve em qual dos lados? Pode até ter estado em todos…

Não parou por aí. Vivemos o isolamento social, o distanciamento físico dos amigos e familiares, o medo da própria morte e de perder entes queridos. Além disso, fomos avisados de que, talvez, não pudéssemos nem nos despedir deles. Não viver o momento da despedida e seus rituais pode ser devastador e propulsor de um luto complicado. E agora? Como lidar com tantos sentimentos misturados?

O encontro com o desconhecido

Ao longo da nossa vida, vamos revivendo experiências e atualizando a maneira que lidamos com todas elas. Isso, quando temos registros de já termos passado por semelhante situação. Mas, e quando não temos? Quando a vivência é tão desconhecida que nos joga no desamparo e na ausência total de registros que nos ajudem na condução dos fatos e no entendimento dos sentimentos desencadeados.

Assim foi o que aconteceu quando nos deparamos com a pandemia e todos os seus desdobramentos que seguem acontecendo. Na busca de recursos internos de enfrentamento, não encontramos registros psíquicos que nos amparassem, pois eles só existem quando a situação já foi vivenciada. Nunca passamos por uma pandemia no nosso tempo. Você pode ter 20, 60 ou 90 anos de idade. Todos enfrentamos pela primeira vez algo desta magnitude.

Justamente por isso, cada um vem encarando esse momento do seu modo, de acordo com as suas possibilidades para simbolizar e significar toda esta vivência. Alguns se utilizaram fortemente da negação, minimizando a realidade como tentativa de sobreviver ao momento de maneira menos dolorosa. Outros, convivendo constantemente com o medo, fragilizados, experimentando um sentimento de desamparo total.

Há, ainda, os que tiveram que sentir em silêncio sem dar espaço nem vazão ao receio da contaminação, porque a única opção era sair às ruas trabalhar e garantir o sustento. Para milhares de pessoas, não houve escolha. Outros tantos, arriscaram-se e seguem se expondo ao contágio diariamente nos hospitais e ambulatórios para acolher e tentar de todas as formas salvar vidas.

Entre os extremos, observamos aqueles que se mantiveram menos alarmados, apegaram-se mais às suas crenças, seus projetos e mergulharam no autoconhecimento, aproveitando o distanciamento social que a situação impunha. Muita gente que você conhece não conseguiu dar conta sozinho. Outros, mais fortalecidos, realizaram planos e conquistaram novos espaços. Bebês nasceram, mulheres engravidaram, casamentos começaram e terminaram.

Houve quem buscou ajuda para desabafar seus medos, angústias e incertezas quanto ao futuro. Descobriram, assim, que somos todos atravessados por incertezas e em 2020 elas ficaram mais evidentes e escancaradas do que nunca. Entender que isso faz parte da nossa constituição ajuda a amenizar a dor e oferece amparo em meio ao caos.

Ninguém sai ileso de uma pandemia

Mesmo que você não tenha testado positivo para a COVID-19, mesmo que não tenha amigos próximos ou familiares infectados. Mesmo que não tenha perdido alguém que ama. O fato é que fomos todos impactados, de alguma forma, pelos efeitos dessa pandemia e ainda sentiremos as consequências a longo prazo. Não se atravessa uma estrada desconhecida assim sem chegar transformado, o mínimo que seja, do outro lado.

No meio do caminho muitas vidas ficaram, isso impacta em uma rede extensa de pessoas enlutadas. É preciso lançar um olhar acolhedor e cuidadoso para elas. É preciso oferecer espaços nos quais elas possam chorar suas perdas o quanto for preciso.

Empregos perdidos, famílias enlutadas, sonhos abortados, profissionais da saúde que nunca mais esquecerão dos dias intensos dentro dos hospitais. Não há como sair ileso. Você, ao menos, se solidariza com quem sofreu diretamente os efeitos mais devastadores dessa experiência. Isso já te transforma, em maior ou menor grau.

O que eu quero te dizer com isso, é que todos os sentimentos e sensações que te atravessaram durante esse ano pandêmico foram e são as formas que você encontrou para lidar com tudo isso. Se está pesado, não deixe de procurar ajuda! Você não precisa encarar tudo sozinho. Isso serve para pandemias e para toda e qualquer situação que você enfrente e que te cause sofrimento de alguma forma.

Agora se pergunte e, se quiser, me conte. Quem é você em 2020? Se identificou em algum momento do texto? Espero que essa breve reflexão auxilie e seja provocadora de novas formas de pensar o que estamos vivendo desde o início do ano.

Priscila Ferreira Friggi
Psicóloga – CRP 07/17532


Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *