Outubro rosa e sofrimento feminino

Outubro rosa e sofrimento feminino

Por muito tempo na nossa forma de pensar ocidental “ser mulher” foi muito confundido com “ser mãe”, a maternidade e a feminilidade se misturavam de forma a penalizar qualquer mulher que não pudesse ter filhos ou que preferisse não tê-los.

A mulher hoje goza de muito mais direitos e muito mais opções de formas para existir. A mulher hoje pode ser mãe, sim, mas também pode ser empresária, executiva, artista e tudo o mais que desejar. Mais do que isso, ela pode ser mãe, esposa, ter carreira, ser fitness e cuidar muito bem da saúde e do próprio bem estar. E isso tudo ainda sem depender de homem algum!

Não precisa dizer que isso também acaba se tornando uma nova forma de sofrer, afinal, dar conta de tudo isso é muito difícil, não só para mulheres. Os homens sempre sofreram com a sobrecarga de trabalho, principalmente nas camadas econômicas mais baixas, mas nunca sofreram tanto com a educação de filhos e com as atividades do lar. Hoje as mulheres sofrem não só com as atividades domésticas, mas também com as atividades do mundo corporativo.

Mulheres e seu papel na família

As mulheres conquistaram o mercado de trabalho, mas isso não significa melhora na estabilidade da família. O homem que antes conseguia manter uma casa só com o próprio salário hoje não consegue mais. A mulher que acredita estar mais livre para trabalhar, na verdade se vê obrigada a trabalhar para complementar a renda de casa. Trabalhar não está sendo mais uma opção para as mulheres, está sendo mesmo uma imposição.

Essa imposição de participar do mundo do trabalho e da renda de casa se soma às outras imposições já mais antigas. Agora a mulher tem que trabalhar, ser mãe, ser fitness, fazer tudo que um homem faz, tudo que o homem não pode fazer (gerar filhos, amamentar, etc), e tudo que o homem historicamente se nega a fazer em termos de cuidados domésticos e dos filhos.

Aquilo que antes se mostrava como única opção para a existência da mulher, que era ser do lar, ter filhos, cuidar dos afazeres domésticos, tarefas infindáveis, um eterno limpa e suja… Agora foi somado às atividades de trabalho, auto cuidado, e muitas vezes também de cuidado com o marido e filhos. E com a adolescência começando cada vez mais cedo e terminando cada vez mais tarde, até a sobrecarga de cuidado com os filhos também aumentou. É um peso expressivo que hoje se exige que as mulheres carreguem.

Os homens, por outro lado, continuam com suas obrigações comuns, o mundo do trabalho e do sucesso financeiro. Por um lado as mulheres são cobradas de fazer muitas e muitas coisas, pois estão diante de tantas possibilidades que estão se tornando mais imperativos do que possibilidades. Por outro lado os homens têm um único imperativo, o do sucesso financeiro e profissional, e o fracasso nessa área significa o fracasso da pessoa. O homem não tem outra possibilidade de sucesso na sua existência!

Apesar das novas formas de pensar mais progressistas, a quase totalidade das pessoas reagiriam com estranheza ao ouvir de um homem que ele não trabalha fora e fica em casa cuidando dos filhos enquanto a mulher trabalha. Em outras palavras, ainda não há muita legitimidade para que o homem seja do lar. Enquanto a mulher pode ter mais formas de sucesso em sua existência, como mãe, como boa esposa, como profissional, o homem está limitado somente ao sucesso profissional, e se ele fracassar nesse meio, não há muita margem para outras formas de realização.

Como anda seu bem estar?

O que assola as mulheres nisso tudo está profundamente relacionado à cultura do bem estar. É essa forma de pensar de que se pode ser tudo o que quiser, e de que há muitas possibilidades para ser feliz, para existir e para gozar da vida. O que está acontecendo é uma mudança nessa forma de pensar. É como se a sociedade dissesse “se é possível gozar de algo, por que você não está gozando?”. O que é possibilidade de prazer está virando obrigação de prazer, hoje é possível dizer que todos esperam que você esteja bem, feliz e alegre o tempo todo, afinal há tanta possibilidade de prazer e de satisfação!

Estamos frente ao dever de ter prazer, mas todo mundo sabe o que acontece com a atividade prazerosa quando ela se torna um dever. Há quem diga que a melhor forma de fazer alguém deixar de gostar de algo seja tornando aquilo uma obrigação, ou um trabalho. E se pensarmos bem, ter prazer se tornou um trabalho, o trabalho dos blogueiros ou influencers é mostrar o quanto têm sucesso e o quanto conseguem gozar da vida. É um trabalho que visa mostrar o quanto se pode ter de prazer. Mas sempre fica subentendido que “se você pode, por que não está fazendo?”.

A mulher ganhou inúmeros direitos, inúmeras possibilidades hoje, mas elas estão se tornando inúmeras obrigações para muita gente, e essas obrigações são o que tem feito a mulher sofrer mais. Hoje as mulheres sofrem o que sempre sofreram, e sofrem também o que os homens sempre sofreram. É possível que a nova liberdade esteja se tornando uma nova prisão.


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