A contemporaneidade é marcada pelo culto ao corpo, o qual passa a ser superinvestido, sendo este um meio que o sujeito tem de se expressar e se diferenciar. No entanto, cada vez mais vemos pessoas que buscam encaixar-se em um padrão que apenas iguala a todos.
A padronização da beleza e o encaixe social
Toda dor pode ser suportada se sobre
ela puder ser contada uma história.
Hanna Arendt
O corpo nos dias de hoje é um assunto “em alta”, veiculado na mídia como um produto simbólico de sucesso ou fracasso que toma lugar na frente social (Fernandes, 2011). Ele surge supervalorizado, tornando-se um alvo idealizado de perfeição inalcançável, através da valorização excessiva da magreza, tentativas de retardo no processo natural de envelhecimento, por meio de procedimentos estéticos, e a incessante busca no encaixe em padrões de beleza ditados culturalmente.
Que lugar é esse no qual o sujeito tenta se encaixar? E a que custo?
Um ideal de perfeição que acaba por tornar-se uma fonte de frustração e sofrimento psíquico, constituindo-se como uma expressão do mal-estar contemporâneo. E o custo dessa busca pode recair na saúde, não apenas do organismo, mas também do psicológico que fica entre às exigências culturais e internas, podendo acarretar em frustrações e até adoecimentos mentais como ansiedade e depressão.
Assim, ao longo de nossas vidas, todos vamos construindo inúmeros ideais que muitas vezes esbarram em cruéis realidades; ideais estes que as vezes nem eram nossos e acabamos por introduzi-los na tentativa de fazer parte de um grupo, de agradar alguém, e nem paramos para nos perguntar se é isso mesmo que queremos fazer conosco.
A imagem corporal ao longo do tempo
“No corpo estão inscritas todas as regras,
todas as normas e todos os valores de uma sociedade
específica, por ser ele o meio de contacto primário do
indivíduo com o ambiente que o cerca”(Daolio, 1995, p. 105)
Ao longo da história da humanidade, a imagem corporal esteve atrelada a diversos significados, bem como o modo do sujeito relacionar-se com ela. Para tanto, podem ser encontrados relatos de diversas culturas, em diferentes épocas, nos quais podemos identificar tais mudanças acerca do assunto.
Estudos mostram que em algumas civilizações na antiguidade, o corpo, culturalmente, nunca era algo “mau visto”, ao contrário, era apreendido de modo positivo, tido com grande estima e valor; a imagem do corpo grego era idealizada e modelada por meio da prática de exercícios físicos (BARBOSA, 2011; CECCARELLI, 2011). Na Idade Média, por exemplo, a obesidade era vista como sinal de fartura e status, indicativo de riqueza.
E essas mudanças foram acontecendo ao longo da linha do tempo até chegarmos aos dias atuais, onde a relação do sujeito com seu corpo algumas vezes pode tornar-se conflituosa.
O século XX nos traz avanços tecnológicos e novas ideologias que submetem o corpo à ditadura da beleza, pois ele passa a ser visto como “objeto de consumo”, explorado midiaticamente. Um corpo que não pode ter falhas, não pode envelhecer (CECCARELI, 2011) e que deve seguir a restritos padrões para ser considerado como belo aos olhos alheios.
Uma nova configuração para lidar com a imagem que se vê no espelho
A questão aqui não é recriminar ou acusar quem recorre a estes meios estéticos para modificar algo em si que não lhe agrada, mas estamos falando dos excessos e ainda, da necessidade de atender a padrões que podem ter como consequência o adoecimento, seja ele físico ou mental.
Encontramos com grande facilidade nos meios de comunicação, receitas prontas, “dicas fantásticas” de como alcançar o corpo desejado e isso ainda a curto prazo, quase como se fosse uma mágica. Somos bombardeados diariamente com fotos de rostos e corpos sem nenhuma falha, perfeitos, sem as marcas do tempo, como se fossem o alvo a ser atingido.
E ao se deparar com tanta “perfeição”, o sujeito pode sentir-se insatisfeito com o que vê no espelho e vai em busca do que lhe foi prometido. Ele sabe aonde quer chegar, o que quer alcançar, mas será que sabe o melhor caminho para chegar lá?
E é nesse meio do caminho que vão surgindo as dificuldades, pois na prática não há mágica. Cada corpo é único, assim como cada sujeito também o é. Cada pessoa reage de uma maneira e seu corpo também vai ser assim. Esse processo de mudança se assim for a escolha, deve ser prazeroso, e não angustiante e forçado. É preciso antes de tudo, respeitar a si mesmo.
Para viver bem com seu próprio corpo
Cada sujeito tem sua própria história, e o seu corpo faz parte disso, pois nele são reveladas características que o identificam ao seu grupo familiar, estão impressas marcas da vida vivida (gravidez, do tempo, cicatrizes,…), e outras que foram acrescidas por escolha, tatuadas em um corpo que também funciona como superfície de inscrição da subjetividade.
Partindo-se da premissa de que o culto ao corpo está em todos lugares, nos tornamos alvos vulneráveis diante dessa exigência idealizada da beleza.
Portanto, ao longo da vida, esbarra-se em limites, situações que se apresentam e exigem do sujeito uma nova reconfiguração de si mesmo. E a Terapia vai auxiliá-lo nessa busca por novas reconstruções de ideais e abandono de outros, a fim de que se possa sustentar seus conflitos e lidar da melhor maneira possível com sua imagem e questões psíquicas atreladas a esta.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BARBOSA, Maria Raquel; MATOS, Paula Mena; COSTA, Maria Emília. Um olhar sobre o corpo: o corpo ontem e hoje. Psicol. Soc., Florianópolis, v. 23, n. 1, p. 24-34, Apr. 2011.
CECCARELLI, Paulo Roberto. In Corpo, Alteridade e Sintoma: diversidade e compreensão. Lange & Tardivo (org.). São Paulo: Vetor, p. 15-34, 2011.
DAOLIO, Jocimar. Da cultura do corpo. Campinas, SP: Papirus. 1995
FERNANDES, Maria Helena. Corpo (Coleção Clínica Psicanalítica). São Paulo: Casa do Psicólogo, 2011.


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