Bem, é isso mesmo, não tenho nada a te ensinar. Desculpe se te frustro desde já, imagino que você deva estar buscando algumas respostas, ou que queira agregar algum conhecimento novo vasculhando os textos expostos neste blog. É possível também, que você esteja em um momento de angústia e que espera algum tipo de direcionamento para lidar com estas questões que estejam te afligindo. E pode ser que você só esteja movido pela curiosidade, e pressuponho que deva estar estranhando alguém publicar um texto afirmando não ter nada a ensinar. Mas, já que você começou a ler, me conceda uns minutinhos deste bem tão valioso e raro nos tempos atuais, o seu tempo, e continue me acompanhando. Não é porquê não tenho nada a te ensinar, que eu não tenha nada a dizer, e em breve você entenderá aonde quero chegar.
Vou citar duas situações cotidianas e gostaria que enquanto as testemunha, você reflita quais destes já te ocorreram e com que frequência, pode ser?!
Primeira delas: Maria chega em casa se sentindo triste e angustiada. Tomada por estes sentimentos e com um imenso desejo de se expressar ela procura alguém pra compartilhar o que sente, e quem sabe conseguir organizar todos os pensamentos que se embaralham dentro dela. Mas, por mais que se sinta querida e reconheça o interesse e preocupação das pessoas com quem tentou conversar, permaneceu sentindo aquela pontada no peito, como se fosse incapaz de se fazer compreender. Agora, além disso tudo, ainda se sente estranha, com uma forte sensação de solidão. Refletindo sobre, percebeu que na maioria das vezes em que tentou se expressar foi interrompida e/ou ouviu coisas do tipo: “Ah! Já passei por isso, mas foi bem pior, você tinha era que agradecer.” ; “Ah, isso é bobagem, não dá importância”; “Não liga pra isso não!” ; “Eu sei o que você precisa: tá te faltando foco e determinação.” “Tem tanta gente pior no mundo, e você reclamando por causa disso?!”
Segunda situação: João está estressado, não anda se alimentando muito bem e mal tem dormido. São muitas preocupações que o perturbam. Quando chega no trabalho, logo às 8h da manhã, antes mesmo de receber um “bom dia” ele recebe ordens e tarefas e tem prazo para cumprí-las. E ele nem sabe se gosta do que faz. Na verdade, nunca pensou muito sobre. Conseguiram este trabalho para ele e nele foi ficando, e lá se vão 10 anos..No horário do almoço ele gostava de se sentar no banco da praça próximo ao escritório, respirar ar puro, mas a uns 2 anos já não tem tempo pra isso, pois usa seu intervalo para fazer os exercícios da faculdade. Ele nem sabe se gosta do curso, mas aproveitou que já estava trabalhando na àrea..Faz um tempo que o colorido anda meio cinza, e ele resolveu se questionar sobre sua vida, suas escolhas, suas motivações, ele se sentia perdido e precisava se encontrar. Mas, ao dividir isto com seus amigos eles disseram: “Você tá louco?! Você tá estudando, trabalhando, o que mais você quer? “ Agora João se sente estressado, angustiado e muito culpado por estar estressado e angustiado. Sente que não deveria estar sentindo tudo isso, que deveria estar feliz. Mas ele não está. E quanto mais ele tenta não se estressar e angustiar, mais ele se frustra, gerando um ciclo vicioso.
Vou me atrever a afirmar que você de alguma forma se identificou com estes relatos fictícios e que estes não tão fictícios assim. Acontece todos os dias, o tempo todo. É que vivemos hoje em uma era que deslegitima os sentimentos, os pensamentos e as dificuldades quando estas não de adaptam ao modelo que dita que devemos ser é fortes, competentes, estáveis, bem sucedidos e felizes o tempo todo. É a era das frases de efeito e fotos bonitas no instagram. Se mostra um sorriso largo enquanto se esconde as tensões. Ao fazermos isto, estamos ignorando muitas de nossas características da vida humana: ela é falha, imprevisível, imperfeita, muitas vezes incontrolável, inconstante. E nós enquanto seres humanos somos o tempo todo afetados por tudo isto que nos atravessa: não temos respostas prontas, nem receita já programada que nos ensine a viver. Como diz Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é que é o viver mesmo… Travessia perigosa, mas é a da vida”. Portanto, é muito incoerente aquilo que esperamos e cobramos de nós, com aquilo que somos e podemos ser.
Assim, acabamos por reduzir e reprimir nossas manifestações de individualidade, de criatividade. Isso é adoecedor. Inundamos e somos inundados por ideias já prontas sobre o que se deve fazer, para onde se deve caminhar, como se a vida fosse como uma equação matemática com resultados precisos se seguirmos tal direção. Por acaso alguém já conseguiu prever todos os acontecimentos que nos ocorreram?Isso mostra que sempre tem algo que escapa, que é incontrolável e imprevisível. Agora por exemplo, não faço a menor ideia de como este texto será recebido.
Portanto, não venho aqui te dizer que sei o que você deve fazer, não vir dar passos para solucionar seu problema. Não quero encaixar ideias prontas em você. Quero que você descubra, que crie suas próprias ideias e soluções. Eu vim dizer, para você se ouvir, com respeito, cuidado e compaixão e isto por si só é transformador. (CONTINUA NO PRÓXIMO TEXTO)

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