Mundo virtual. Encontros marcados via aplicativos de relacionamentos. Encurtamento de distâncias através de localização de pessoas onde fotos, informações e perfis são vistos pelos interessados na busca por matches. Apenas um deslizar de dedo sobre a tela para esquerda e aquele possível par do outro lado é imediatamente descartado. Um perfil. O descarte não leva nem um segundo, é rápido, fácil, sem ser visto. Não há desconforto entre as partes. Já um simples deslizar de dedo sobre a tela para a direita pode levar ao início de uma conversa. Perfis. Nesse momento, afinidades, estilo e gostos parecem ter encontrado combinação. Cada match, uma dose de dopamina.
A liquidez nos relacionamentos
Tudo é sem trabalho, rápido e líquido. Os usuários se acostumam e repetem. Milhões de encontros se realizam e novos milhões por vir. O pensamento dos usuários pode girar em torno: se não der certo dessa vez, sem problema, sigo em frente na busca de novos perfis. Existem muitos! Todos a mão! Mas, o que será dar certo? Será apenas registrar aquela nova pessoa na lista de “contatinhos”, afinal, sei lá, um dia se não tiver coisa melhor para fazer, entro em contato e tenho um programa? E dar errado? Significa bloquear para jamais entrar em contato novamente? Na atualidade, não se espera qualquer explicação, estranho seria pedir por isso, não se tem nada com ninguém, muito menos preocupação em magoar o outro. Isso sumiu do dicionário atual. E todos, nessa comunicação sem olho no olho, participam, de boa vontade, na perpetuação dessas novas regras. E sorriem, “felizes”. Mais uma self. Liquidez jamais vista em outros tempos.
Onde será que nos situamos na história? Sociedade em transformação? Na verdade, jamais paramos fixos no tempo. Idas e vindas. Fluxo: mercadorias indo e vindo em vitrines. Pessoas. Stories. Exposição em demonstrações de felicidade constante nas redes. Acesso ilimitado na visibilidade da alegria e prazer alheios. Novíssima era. Vidro. E dentro dessa nova “facilidade” de visualização do mundo do outro, uma frase comum aparece: vou aproveitar a vida.
Mas, o que será aproveitar a vida? Será que significa ficar com o máximo possível de pessoas sem criação de vínculo? Pegar o maior número de pessoas? Será que o que desejamos é ser trocados e procurados apenas quando o outro não tem uma alternativa mais divertida naquele momento? E depois escutarmos um frio “tchau, valeu”. O que será que acontece neste momento? Alegria? Satisfação? Liberdade? Correntes? Vazio? Transparência? Ninguém vê ninguém? Invisibilidade? Aí fazemos o que? Corremos para mais uma publicação com fotos onde estamos bonitos, alegres e bem acompanhados? Afinal, precisamos ser vistos e aparecer como usuários de sucesso, sem dor, espertos, sempre a sorrir. Não podemos esquecer que o sorriso torna-se a nossa luz iluminando as telas. Visão mais clara impossível: a “verdade” iluminada surgindo somente para quem está acessando aquele conteúdo.
A necessidade de inclusão
Mas quem acessa? Todos, portanto esta visualização passa a ser a verdade a todo instante infiltrada na mente comunitária. E, assim pensam: preciso entrar neste paraíso também, já que o meu mundo está longe dessa visão de paraíso. E se sentem inferiorizados. Resultado: mais selfs “felizes” colocando a roda em movimento, girando em torno da busca do paraíso. Mas que paraíso é esse? Paraíso de um palco amplamente visualizado no qual os atores desempenham papéis de pura alegria? Atores representando e outros atores participando e compartilhando sem parar? Hoje em dia, é isso que se tem de exemplo de ser feliz, é isso que todos correm atrás incessantemente e estão aprendendo. E o que será que estamos desaprendendo?
Desaprendemos a lidar com a dor, com o desejar e o obter a partir da conquista, com os valores de respeito. Fugimos, não queremos crescer. Mergulhamos nossa cabeça e nos trancamos na beleza das postagens e esquecemos de procurar meios satisfatórios de felicidade no real. Tornou-se mais importante parecer feliz e compartilhar a todo instante do que realmente conseguir sorrir de forma espontânea e entender quem está ao nosso lado. Passamos mais tempo olhando os outros nas telas e nos sentindo infelizes por não estarmos no grupo dos tão poderosos assim. E aí resolvemos: para estarmos nesse lugar sonhado, vamos repetir o que os felizes fazem. Mas será que é assim que todos se sentem realmente? Ou será que estamos representando papéis de felicidades utópicas? Nos enganando mutuamente? Será que percebemos o que estamos fazendo? Ou será que viramos máquinas de reprodução sem reflexão? Será que somos isso? Será que dizíamos a um tempo atrás: normal, é assim mesmo? E agora, será que um simples valeu é suficiente para continuarmos na mesma roda, porque não há outra roda? E porque será que não criamos uma roda mais satisfatória? Por que não utilizamos essa maravilhosa tecnologia para o engrandecimento da humanidade? Por que não nos amamos mais ao invés de nos tornarmos indiferentes uns aos outros com a facilidade do encurtamento das distâncias? Por que não conseguimos um match? Por que?
Claudia Brandão Lobato Cunha

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