Feminino e feminismo

FEMINILIDADE E FEMINISMO

O Feminismo tem feito história. As mulheres que ousaram no passado  sofreram retaliações profundas, mas ainda assim conquistaram para nós os direitos que hoje podemos exigir sem que precisamos morrer para isso.

Paralelamente ao feminismo, e na esteira dele, tem havido estudos muito importantes de gênero. Esses estudos estão longe de fazer parte de algo com que lido de fato em minha clínica do cotidiano.  Mas as motivações que nos levam a tentar compreender melhor as mulheres, seu papel na nova sociedade, seu papel de antes, suas conquistas, seus valores estão tão perto, quanto nossa alma está. Porque está dentro de nós.

O famoso psiquiatra Carl Gustav Jung percebia duas facetas em nós. Ao homem caberia uma faceta feminina, interiorizada a partir de sua relação primeiramente com a mãe. Ele a chamava de anima. E na mulher, um correspondente acúmulo de imagens do masculino, introjetadas e que ele denominava animus.

Isso já era muito revolucionário na época, mas hoje é fundamental que compreendamos que homens e mulheres estão no mesmo barco. Nascemos independentemente do nosso sexo, de uma mulher. Isso é universal. Nossa primeira relação com o mundo será com  humores, os líquidos, o ritmo cardíaco e os fluxos de nossa mãe. Os terapeutas pós reichianos chamarão de relação originaria, intrauterina. Isso forma a parte de nossa personalidade mais enraizada biologicamente. E essa relação é fundamental. O terreno em que está plantado o ovo formado pelo espermatozóide e o óvulo. Ah! E sim, para nascermos precisamos do pai. Não se nasce só de óvulos. O pai será para sempre aquele que mostra o mundo ao filho, a cultura.

Os terapeutas pós freudianos estudaram profundamente a relação de desenvolvimento  da criança, e sim, a relação com esses dois alicerces do nosso caráter são fundamentais.

Então: estamos no mesmo barco. Se afundarmos. Afundamos todos.

No livro a árvore do conhecimento nos estudos de Maturama e Varella, nos ensinam que as sociedades anteriores ao patriarcado eram matriciais. Os valores masculinos de competitividade e combatividade não eram  predominantes.  Tudo ocorria ao redor do centro,  a tribo.  Crianças eram cuidadas por todos.  Se coletava. Mais tarde com a aparição das sociedade plantio,  ainda se trocava com os animais, eles eram da família, embora fossem selvagens.  Mas aos poucos a noção de território se fez valer. Era preciso defender sua colheita. Os outros viraram inimigos.  Estava nascendo o patriarcado.

Esse relato é bem pequeno sobre o assunto, mas nos dá uma noção. Uma direção para reflexão.  O que quero dizer é que os valores masculinos se impuseram.  Onde imperaram valores de força e asserção pelo poder.

O que me ocorre dizer é que no afã das mulheres de conquistarem um direito de igualdade, elas se colocaram no mundo com sua masculinidade e com sua agressividade, num mundo cujos valores patriarcais ainda são vigentes.

Interessante é ler o livro Ser Mujer, que conta o trágico abandono das mulheres de seus papeis de mulheres, sua progressiva desidentificação com suas mães, e sua atitude de vestir os terninhos de executivas.  Durante todo o século vinte.

Eu concordo que não é bem assim.  A resistência da mulher se caracterizou pelo poder feminino, de tecer e costurar retalhos como está contado nos trabalhos de patchwork. Aqueles trabalhos de costura de retalhos. Ou em suas resistências  de se reunir da igreja, conspirando por detrás dos panos.

No livro Uma voz diferente, Carol Gillingan nos conta uma famosa pesquisa de diferenças entre os valores femininos e masculinos. O pesquisador indaga a duas crianças de sexo oposto, com comportamento nota dez na escola, e com aprendizado excelente: um homem, está com sua esposa muito doente. Ela pode morrer. Ele vai a farmácia e pede a medicação ao farmacêutico. Mas o preço é muito caro e ele não pode levar. O que ele deve fazer? Deixar sua esposa morrer ou roubar o medicamento? Eis um dilema moral.

O menino de 10 anos responde muito prontamente que o sujeito não pode fazer nada.  E o pesquisador fica muito satisfeito. Já a menina que também tinha 10 anos, começa a responder dizendo: depende. Todoo desenvolvimento de seu raciocínio era de contornar e contextualizar.  Não é um valor de certo e errado.  Mas o que me chamou a atenção é que o pesquisador ficou de tal maneira intrigado, e insatisfeito,  que continuava a perguntar à menina e esta começou a sentir uma inadequação e desconfiou de si mesma. Começou a ficar insegura.

Aqui estão somente ideias. Não fecham de forma alguma esta discussão. Fica a indagação: quais serão os valores do feminino em nós, homens e mulheres?

Hoje em dia temos estudos, trabalhos,  práticas de mulheres que querem resgatar os valores do feminino. Se atribui ao feminino os sonhos, a experiência direta, sintética, os estados religiosos,  a criatividade artística, a poesia,  o contextualizar, o circumabular um tema.  As mulheres estão indo por aí. Fazendo rodas de conversa, rodas de cura. E o que elas fazem ali? Compartilham suas histórias.  São velhas ferramentas que nos fortalecem.

As mulheres e homens que somos, continuamos trabalhando continuamente para a restauração de um mundo circular,  mais horizontal,  onde possamos contribuir com valores não só de competitividade e combatividade. Mas de cooperação.

Falo homens, porque se o patriarcado gerou as guerras,  também gerou tudo o que conhecemos, e nele, existiram os homens de fé, generosos, que souberam ouvir também a sua alma feminina . Todos nós contamos muito com eles.

Clinicamente, isso parece distante. Mas não é.  A inibição dos aspectos femininos do nosso ser,  ou seja, nossa alma,  acaba produzindo toda sorte de sintomas.  Ficamos atrelados a um sucesso que clama por atitudes extrovertidas e esforços no sentido de metas desumanas.

Nas empresas sabemos que tudo isso tem sido muito discutido. E se introduzem cada vez mais  a atitude de acolher em nosso dia a dia de trabalho e de relações valores do ser e  da interioridade.

O mundo pautado numa imagem de eficiência, efetividade e objetividades, que dispensam a manifestação de um mundo interior e subjetivo, está fadado ao adoecimento. Simplesmente porque amputamos de nós assim aquilo que há de mais criativo em nós, mais humano.

Assim, um sonho, não é só um sonho. Uma intuição não é só uma intuição. Como queremos aprender a seguir nossa bem aventurança, se deixamos de lado a linguagem de nosso coração?

Essa repressão daquilo que nos anima e nos dá a arte de fazer e ser, nos conduz a secura de uma lucidez racional, e vocês conhecem o texto  de Fernando pessoa, o poeta : “o sol ao invés de criar, seca”. O sol do meio dia, a clareza excessiva, o excesso de razão seca nossas vidas.

Então sonhe, faça seu diário, convide os amigos para um sarau onde cada um faz algo diferente: canta, dança, declama, toca , lê as mãos, brinca.  Passeie na praia, não faça só exercícios, ande devagar e de mãos dadas.  Discuta calorosamente.  Não educadamente somente.   Respire bem.  Se não puder se colocar, crie um texto, conte uma história, crie um símbolo.  Deslize para fora da caixinha.  Converse com seus avós.  Brinque de casinha com os sobrinhos.

Isso talvez seja a manifestação da força do feminino mais do que imaginamos. Isso talvez seja mais feminista do que construir barreiras, e realçar oposições.  Contextualizar, recortar, colar,  compartilhar,  contemplar…. a alma agradece.

Por favor, não dá para esgotarmos a questão do feminino e da necessidade das mulheres de  lutarmos por respeito e igualdade num pequeno texto. O comportamento das lutas feministas devem continuar . Eu apenas estou sugerindo que cada vez mais, nos empoderemos daquilo que nos faz ser mulheres. Isso se torna um grande trabalho terapêutico.


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