Desejo, logo de início, mencionar a fonte de inspiração que me levou a escrever sobre o tema em questão que é o livro “De menina à mulher – cenas de elaboração da feminilidade no Cinema e na Psicanálise” da autora Malvine Zalcberg (2019).
Citando por vezes, pequenos trechos dessa atraente obra, de leitura fácil mesmo para leigos, por considerá-los muito bem formulados e também por gratidão, vou encadeando minhas articulações de ideias, tornando assim este blog uma contribuição pessoal sobre esse tema fascinante.
Assim sendo, vamos nos voltar, em seguida, para o processo pelo qual passa o eterno feminino.
Identidade feminina e a figura da mãe
“O processo ‘de menina à mulher’ está intimamente associado às duas vertentes da feminilidade da mãe – a do feminino materno e a do feminino sexual” (Zalcberg, 2019).
“A mulher depende, assim, em grande parte, dos recursos psíquicos com os quais a mãe a dota, abrindo o caminho, em seguida, para outras aquisições formadoras de sua identidade feminina” (AMAZON, 2019).
A menina, desde tenra idade, espera ganhar da mãe a resposta para a questão que vai permear toda a sua vida: o que é afinal ser mulher?
Ela vive suas primeiras vivências de prazer, já na fase de aleitamento materno, num estado de fusão.
“A menina, a partir dessas experiências, demarca a matriz de sua própria existência e a mãe faz dela também um objeto de prazer” (Zalcberg, 2019) que satisfaz suas fantasias de competência e auto-realização, podendo até ter expectativas de que a filha alce voos compatíveis com aquilo que a mãe sonhou para si mesma, mas por algum motivo fortuito não se tornou uma realidade para ela.
Por outro lado, o amor materno pode ser por vezes, incerto e imperfeito e não está isento de contradições e ambivalências, abalando a incipiente serenidade da filha que pode ter até sentimentos de culpa, julgando-se responsável pelas eventuais atitudes inadequadas da mãe.
Da mesma forma a menina, desde bebê, tem impulsos amorosos e agressivos em relação à mãe (e ao pai), dirigidos principalmente ao seio materno, às vezes literalmente mordendo a fonte do seu alimento. Porém, é principalmente em suas fantasias inconscientes, ou através dos frutos de sua fértil imaginação, que ela dirige à figura materna seus impulsos de amor e ódio, vivenciados em suas brincadeiras.
Qual a menina que nunca brincou de boneca e de casinha, quando ela demonstra não só o que acontece com ela, na sua experiência de filha (boneca), mas também seu desejo pela maternidade, quando se torna a mãe do bebê?
Eventualmente, não querer brincar com a boneca pode ser o prenúncio de dificuldades futuras, pois é através do lúdico que ela realiza ações que no mundo real ainda não lhe são permitidas.
Vale lembrar que essas experiências emocionais infantis perpassam o âmbito da sexualidade, mas evidentemente não se assemelham ao despertar do desejo sexual propriamente dito que surge na adolescência, porém se constituem na matriz de toda a vivência sexual da futura vida adulta.
Identidade feminina e a figura do pai
A terceira instância, mediadora – representada pelo pai – se interpõe entre a criança e a mãe, para aplacar o grude que há entre elas. “Ao aceitar a intervenção paterna, a mãe demostra para a criança que seus prazeres não se limitam aos que tem com ela” (Zalcberg, 2019).
A mãe pode demonstrar uma resistência à acatar a palavra do pai, que não deve ser venerada, mas também não pode ser desvalorizada, pois representa o endosso de que a filha não é propriedade de ninguém, sobretudo não é exclusividade da mãe.
“Assim sendo, a mãe é a marca de um desejo original” (Zalcberg, 2019)., enquanto o pai determina o caminhar em direção ao futuro. É o seu consentimento que autoriza o desejo de se desenvolver e viver no mundo de forma independente.
Caso o pai não consiga desempenhar o seu papel junto à filha devido aos seus próprios conflitos emocionais ou por pura ausência, caberá a figura do seu substituto que poderá ser o segundo marido, ou tio, ou avô, etc.
“Esse é o caminho que corresponde à passagem da feminilidade prometida pela mãe e aquela validada pelo pai” (Zalcberg, 2019).
“Esta passagem é determinada pela estruturação sexual e afetiva da relação dos pais que depende do lugar que a mãe reserva a esse homem, em seu desejo, e de qual lugar ele responde ao desejo dessa mulher “(Zalcberg, 2019).
“O papel da mãe é aceitar que sua filha possa vislumbrar seu próprio destino, distinto do seu. E o da filha é assumir seu próprio desejo e criar uma feminilidade que seja sua” (Zalcberg, 2019). Essas oscilações guardam estreita relação com o caminho de separação da mãe, processo esse jamais definitivamente resolvido, nem por uma, nem pela outra. Quando mãe e filha não tomam cada uma sua direção, resulta desse impasse um novelo difícil de desenrolar.
Se a aquisição da feminilidade não for relativamente conquistada, a mulher ficará indefinidamente sem uma noção clara que lhe possibilite compreender quem ela é. Tornar-se mulher nunca é um processo que ocorre de uma vez por todas; deve ser constantemente lapidado de acordo com a história e o momento de vida de cada mulher.
A experiência da maternidade pode ajudar a mulher a obter uma imagem idealizada de si mesma, como sendo uma espécie de compensação imaginária à falta de sua completude, pois para se ter desejo é preciso que haja falta, mas não uma falta intransponível. De outra forma, a mulher pode dirigir seu desejo de criar, priorizando uma atividade profissional ou outra de sua escolha.
É superando a necessidade inicial de receber amor infinito por parte da mãe e do pai, nem sempre disponíveis, que a menina-mulher poderá vir a encontrar dentro de si mesma, de maneira imaginativa, amor-próprio suficiente para se tornar, afinal, uma mulher plena.
Cabe à cada uma, reinventar-se constantemente, mantendo a ideia de que não há uma maneira única de ser mulher, mas um modo que seja significativo a cada mulher ser. Cada uma poderá, eventualmente, superar as adversidades do seu desejo, vida afora, atingindo um estágio quando tem uma clara noção do que é ter intimidade emocional para consigo mesma (e por extensão) qual o vínculo que deseja ter para sua companhia. Essa também é a finalidade de uma psicoterapia.

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