A definição mais comum de autoestima é que seja uma percepção da pessoa sobre si mesma, podendo ser positiva ou negativa. Teóricos das ciências do comportamento dizem que existem duas dimensões da autoestima: o descritivo, chamado autoimagem, a percepção que a pessoa tem da sua aparência. E o valorativo, que indica autoestima, a percepção da pessoa sobre si no mundo, suas habilidades e o desempenho delas.
É muito comum as pessoas buscarem a psicoterapia tendo como principal objetivo “melhorar a autoestima”. E costumo metaforicamente falar que toda forma de psicoterapia é “adentrar o buraco infinito da autoestima”.
Toda psicoterapia, independentemente dos objetivos dos clientes, envolve fazer uma caminhada nas experiências da vida e como essas contribuíram para a visão de si no mundo.
Nessa caminhada existem ruas que entramos e ficamos um tempo e outras em que o passeio é curto. Toda prática de autoconhecimento (como a psicoterapia) vai lhe ajudar a entender como você aprendeu a pensar a si mesmo e se essa forma de pensar lhe machuca ou prejudica outras pessoas com quem você convive.
A autoestima como uma construção
À medida em que exploramos a construção da visão de si que o cliente possui, aquilo que inicialmente se apresentava como a questão que mais precisava ser reparada a respeito da autoestima pode revelar outras questões mais profundas que estão conectadas.
Por exemplo: gostar do seu corpo. Ao longo da psicoterapia, o cliente pode chegar à conclusão que essa demanda por gostar de seu corpo talvez não seja a mais importante no momento. Ou que revele outras questões.
Pode ser que descubra que apesar de ter conquistado tantas coisas na vida, continua se achando incompetente e vivendo uma vida devota a provar o contrário para si e os outros. E de repente o “problema com a aparência” se revela como o reflexo de um outro problema.
Boa parte dos nossos comportamentos são aprendidos, não nascemos com eles. Em nossas vidas passam muitas pessoas e esses relacionamentos deixam marcas. E com essas pessoas aprendemos várias coisas, principalmente um jeito de pensar o mundo e a si mesmo. Porém, às vezes aprendemos pouco a nos amar, aceitar e cuidar, restando culpa, cobranças e rancor.
O foco da psicoterapia não é “apagar as emoções” que você associa com a baixa autoestima. Elas na verdade são uma lanterna nos mostrando a direção para qual caminho vamos seguir. Apontam-nos o que você pensa constantemente e que gera sofrimento. É esse o território que devemos explorar!
Autoestima como objeto de trabalho
Então, no curso da psicoterapia construímos uma espécie de mapa sobre o que você aprendeu sobre si mesmo, sua imagem e como a vida funciona. Neste mapa consideramos tudo aquilo que você julga importante: as relações parentais, experiências escolares, os amigos da infância e os elementos culturais.
Este último é crucial para o valor que nós nos damos dentro da comunidade em que vivemos! As sociedades podem ser racistas, xenófobas e machistas. E isso influencia diretamente em como nos sentimos na vida. Parte da psicoterapia é desconstruir valores que promovem violência (entenda aqui também como a violência que se comete a si mesmo). Da mesma forma, enfrentá-los com uma compreensão crítica e histórica.
Uma vez que o mapa está desenhado e o cliente consegue visualizar como suas experiências se conectam e formam sua visão de si mesmo, trabalhamos naquilo que é importante “dar ouvidos” e naquilo que precisa ouvir menos.
Com esse trabalho, um novo posicionamento no mundo se constrói e é balanceado da seguinte forma: uma vida em que você é o que quer ser sem esperar que o mundo à sua volta mude, mas que consequentemente o mundo à sua volta muda também, pois você vai estabelecer novas formas de se relacionar que geram mais aceitação e tolerância.
“Quem eu sou”
Em um mundo em que vivemos boa parte de nossos dias olhando para uma tela desejando ser alguém da foto, nossa maior missão é deixarmos a tela de lado e direcionar nosso raciocínio não para “Quem eu gostaria de ser”, mas “Quem eu sou”.
Por vezes não é sobre ser produtivo ou competente, bonito ou feio, capaz ou incapaz; mas sobre ser amado e conseguir amar, aceitar e ser aceitado, respeitar e ser respeitado. É sobre ter e gerar oportunidades iguais e construir uma vida que contribui não só para sua autoestima, mas que ajuda a mudar outras vidas de forma gentil, justa e solidária.
Talvez a autoestima perfeita seja aquela que nos possibilita nos abraçar e cuidar de nós mesmos. Não há dúvidas de que se você conseguir tratar a si mesmo com honestidade e carinho, seus relacionamentos serão sobre troca, aceitação e o cuidado com o bem mais precioso: a vida.

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