Jung possuía desde sempre um receio maior para falar sobre o tema da sincronicidade. A comunidade científica do contexto em que ele estava inserido, não ia de encontro a um pensamento que negasse as relações tanto causais, quanto lineares.
Ele desafia assim o status quo, quando constrói uma de suas últimas obras, próximo a data de sua morte: Sincronicidade 8/3 – A dinâmica do inconsciente – dando importância a necessidade de buscarmos o que não é visível e o que não é traduzido pela explicação causa-efeito. A partir de uma percepção diferenciada, Jung possuía capacidade para observar profundidade maior nos conteúdos imprecisos e singulares da vida.
O confronto com o pensamento Ocidental, que prioriza a busca de verdades baseando-se no racionalismo, fez com que Jung se debruçasse na filosofia Oriental, buscando equilibrar o cientificismo da academia. Já que, no Oriente as coincidências significativas são vistas como o pressuposto seguro do mundo, percebeu que seu modo de pensar sobre a sincronicidade era compatível ao modo que os chineses compreendiam o universo. O I Ching, o mais velho livro científico na China fala sobre prováveis acasos da vida e serve como alimento espiritual para a sua população.
Acontecimentos sincronísticos são vistos como eventos inesperados, que se ligam a um objetivo exterior. Direta ou indiretamente, vão de encontro a um estado psíquico comum, em que nem o tempo nem o espaço podem influenciar a sincronicidade. A partir da ideia de que tempo e espaço são compreendidos como coordenadas teóricas de um corpo que se movimenta; que na verdade representam a mesma coisa, e assim é falado sobre o “espaço de tempo”.
A impossibilidade de racionalizarmos o fenômeno de sincronicidade, a partir de métodos e teorias, faz com que o fenômeno seja compreendido através da vivência. Esse sentimento de significado que damos as nossas vivências está implícito, mesmo quando não o percebemos. O conhecimento do mundo é oriundo do que vivemos nele, ou seja, das nossas percepções, compreensões e experiências que assumimos na troca com o externo.
O pensamento positivista, racional, egóico, tem por característica a exclusão do que é misterioso, baseando-se em um desencantamento pelo mundo, um esvaziamento da natureza, do real e consequentemente da vida. Logo, o fenômeno de sincronicidade envolve o encantamento pelo mundo, a esse misterioso, muitas vezes criticado.
A percepção da existência do fenômeno de sincronicidade que pode trazer significado maior ao indivíduo durante o seu processo de autoconhecimento, o qual pode ser entendido como um diálogo do eu consciente que compreende, localiza ou combate os conteúdos do inconsciente.
Jung comenta que a individuação seria o “ir de encontro ao si mesmo”, em um movimento que visa a totalidade, conhecendo tanto os caminhos positivos quanto os caminhos negativos, que constituem a nossa personalidade. Sendo que o problema maior de um indivíduo seria a unilateralidade, ou a polarização; que pode ser entendida como uma rigidez psíquica em que a pessoa se fixa em posicionamentos nem sempre saudáveis, sem ouvir ao chamado da alma.
A importância dada em se falar sobre o fenômeno da sincronicidade se estabelece a partir de relatos de vivências, em que são identificados esses fenômenos que ocorrem com frequência considerável, porém, como não são ainda fenômenos vistos como elementos de valor e cientificamente consistentes, as pessoas não se atentam para. O que pode trazer benefícios durante a prática clínica, como uma via de integração que traz validade e sentido a compreensão dos fenômenos cotidianos de um paciente em processo de análise.
Dessa forma, compreendemos que a sincronicidade pode ser vista como uma das vias possíveis de comunicação do Daimon. Este pode ser entendido como um guia do ser humano, que avisa e prevê adversidades, ajudando em questões complexas, auxiliando pela trajetória de vida e construindo assim a conexão com o self. Diálogo esse que pode ser visto a partir dos sonhos, percepção da voz interna e, como falado anteriormente, desde acontecimentos sincronísticos.
A ligação de eventos díspares, reunidos de maneira em que a mente seja pega em flagrante, ampliando assim a visão de universo, viabilizando que o sujeito se dê conta de novas possibilidades, permitindo habilidade para estar em contato com a capacidade infinita de interconectude do universo. Essa cadeia de eventos nos localiza sobre qual seria a real contribuição da sincronicidade para a individuação.
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