Quem roubou meu pai?

Ele esteve aqui em algum momento ou eu nunca o conheci, mas a impressão que tenho é que não fomos nós os responsáveis por este distanciamento, foi alguém, muito mal, que quis nos ver longe um do outro.

O dia dos pais vem acompanhado de dor, tristeza e saudade do que eu nunca tive.

A pergunta que eu passei a me fazer depois da psicoterapia é: Quem foi ou é realmente o meu pai? Não o pai biológico, que teve a função restrita de me trazer à vida, mas o que semeou vida enquanto eu já existia. Quem sorriu comigo, acompanhou nos grandes e difíceis momentos, colocou limites quando eu precisava e celebrou comigo?

Pensando melhor, eu tenho vários pais! O meu tio tinha tempo pra ficar comigo, minha avó era a durona que ajudou a me deixar na linha e eu tenho um padrinho também, que há um tempo o chamo assim, porque toda vez que eu saía triste da escola ou no dia dos pais, ele me dizia que assim eu poderia escolher quem seria, me dava um picolé e me olhava com ternura.

Eu escolhi. Todo segundo domingo de agosto ia lá na porta da escola ver o meu padrinho, ele depois me disse que não precisava ser ele, que o picolé era um presente de coração, mas que adoraria ter uma filha esforçada e carinhosa como eu. Era exatamente o jeito humilde dele que me fazia querer estar mais perto. O convidei para jantar em casa, conheci depois a sua família e sempre ia até o seu trabalho na porta da escola para conversarmos. Tudo bem que não tínhamos tanta convivência, mas as poucas palavras de suporte e motivação que eu recebia me preenchiam para ir atrás dos meus objetivos e planos. O levo comigo sempre que penso em desistir ou me pergunto onde está o meu pai.

Eu escolhi não remoer o que não foi, escolhi olhar para a minha mãe e dizer: Que mulher! Quanto ao meu pai, quando bate uma insegurança e raiva da sua ausência ou apatia, revejo a história de vida dele, revisito cada parágrafo que já me contaram e que eu também fui atrás para saber e falo comigo mesma: eu entendo. Eu aceito que você fez e faz exatamente o que dá conta.

Perdoar é um capítulo novo na minha história, mas a tenho escrito com sabedoria, calma e amor próprio. Se é realmente importante pra mim, um dia eu vou conseguir.

Psicóloga Naiara Travaglia Vitoy

CRP 06/ 149854


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