As religiões ocupam um espaço importantíssimo em nosso dia a dia. Independente de alguém ser crente ou descrente, as influências religiosas estão presentes em praticamente todos os elementos de nossa vida cotidiana, tais como em expressões faladas no dia a dia como “dar um salve”, “benção” ou “axé”, costumes sociais como o descanso no sétimo dia, entender que algumas coisas acontecem por “carma” ou que “tudo o que vai volta”. Existem heranças religiosas nos símbolos que carregamos, na arquitetura das cidades, assim como nas narrativas e noções morais em que nós aprendemos em nossa formação como pessoas.
A formação humana depende de que pessoas formem pessoas. Processos de parentalidade e de acolhimento que perpassam cuidados e ensinos que são fundados na cultura carregada por aqueles que formam a criança e que por gestos solidários passam aquilo que sabem e sentem para as próximas gerações. A criança é imbuída pela perspectiva de mundo presente em seu meio, sendo esse mais seguro ou agressivo isso já acarreta ecos em sua vida, pois os sentidos de mundo aprendidos no início da vida são tomados por uma forte sensação de verdade. Podemos perceber essa sensação de verdade em relação ao nosso nome próprio ou mesmo dos objetos a nossa volta, assim como os costumes familiares e dos grupos que fazemos parte.
Somos intérpretes do mundo e de tudo aqui que aprendemos. Se quando crianças aprendemos diferentes verdades de mundo, somos convidados a revisitá-las em diferentes momentos de nossas vidas, ressignificando esses aprendizados a partir de nossas vivências. A vida adulta é carregada de inúmeros dilemas e escolhas que são tomadas a partir dos referenciais de mundo e de quem nós nos formamos a partir das vivências de mundo. Diante desses dilemas e escolhas, muitas vezes, nos revigoramos quando essas vão ao encontro de nossos valores (exe: uma amizade que se mostra fiel) e, em outros, nos decepcionamos com os desencontros a esses valores, como uma traição ou a perda de alguém.
As dores de mundo nos deslocam de quem somos. Nos sentimos diferentes – distantes – e as coisas parecem fora de sintonia, sem graça, ou como se nossos atos se encontrassem ressentidos ou desmotivados. Se por um lado a experiência religiosa preenche certo vazio existencial, o peso da vida e as contradições presentes no mundo acabam por tirar o gosto de seu sentido. As dores, diante da vida, não se trata de provação, desígnio, desafio ou falta de Fé. Se buscarmos entender o que significa a palavra “Fé”, vemos que ela é sinônima de “crença” ou “acreditar”, algo diferente de um saber definitivo e claro que poderia ser mais entendido como fanatismo.
A busca por um aconselhamento psicológico não significa o questionamento da Fé ou da religiosidade, mas do encontro de modos de como se lidar com os pesos presentes na vida e as responsabilidades do dia a dia. Não significa o confronto com os significados presentes na crença ou na religião, mas lidar com as escolhas e perspectivas de vida assumidas a partir das mesmas.
O atendimento psicológico, nesse sentido, tem um papel de reafirmar os compromissos firmados consigo mesmo no curso da vida, aliados ao desenvolvimento de recursos internos necessários para se ter uma boa saúde mental e bem-estar.
A psicoterapia é um encontro no qual nossas questões de vida são revisitadas junto ao psicólogo para se identificar essas dificuldades e buscar modos de como lidar com às mesmas. Significa compreender os sentidos de mundo que levaram cada um de nós a sermos quem somos e o que tornam essas dificuldades dilemas para nossa existência.
O encontro desse sentido de ser é também um caminho rumo aos valores aprendidos no curso da vida e, independente deles serem mais próximos ou distantes de uma religião, trata-se de uma aproximação mais equilibrada entre a pessoa que somos, nossas crenças, e as exigências do dia a dia.

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