Relações tóxicas e a visão sistêmica: Como a Constelação Familiar Sistêmica ajuda no processo psicoterapêutico
Relacionamento tóxico é qualquer tipo de vínculo – seja ele familiar, social, profissional ou amoroso – que estabelecemos na vida e provoca desconforto, angústia ou sofrimento, geralmente para todos os envolvidos. São tóxicas aquelas relações que nos causam irritações, nos aborrece, onde estamos sempre em desacordo, gerando estresse e inúmeras discussões, mas que por algum motivo não conseguimos romper esse vínculo danoso. Surgem sentimentos de raiva, culpa, desânimo, mágoa e até mesmo fracasso por se ver impotente diante de uma luta que parece inglória.
O sentimento é de que não conseguimos simplesmente mudar nossas atitudes e repetimos comportamentos que nos faz sentir presos nesses padrões repetitivos que nos aprisiona de forma tão intensa. E mesmo reconhecendo essas emoções infelizes não conseguimos perceber uma saída para romper com esses laços nocivos. É como saber que vou cair num buraco e mesmo assim continuar caminhando até ele.
Trazemos em nossa bagagem conceitos e valores que podem se tornar um obstáculo para enxergarmos um jeito diferente e mais eficaz de sair de uma situação difícil. Isso acontece porque muitas escolhas que fazemos provém de crenças que aprendemos há muito tempo e que ainda norteiam nossos pensamentos e atitudes. São experiências aprendidas que fizeram sentido em algum momento da vida, mas que agora podem não ser mais viáveis, mas ainda assim continuamos utilizando as mesmas estratégias antigas. É como utilizar um aplicativo moderno de Smartphone num aparelho de celular antigo: o sistema operacional antigo não comporta mais a “nova tecnologia”. Resultado: não vai funcionar.
A Constelação Familiar Sistêmica como Intervenção Terapêutica
Por meio de uma abordagem sistêmica, que abrange uma visão integrada da pessoa com as questões culturais da sua dinâmica familiar, é possível verificar os elementos nocivos do sistema familiar do indivíduo para a compreensão do que é um obstáculo para o seu processo psicoterapêutico.
O uso do método de Bert Hellinger viabiliza uma análise breve e focal do psicólogo para examinar padrões transgeracionais que se repetem de forma inconsciente. Dessa forma, a técnica da Constelação Familiar Sistêmica pode facilitar a quebra de padrões repetitivos ou emoções cristalizadas que podem estar contribuindo para a estagnação de atitudes que subjugam as emoções dentro dos relacionamentos afetivos.
Somos seres sociais e hoje há uma mudança de paradigma em todos os setores da vida humana. Nossa forma de nos relacionarmos mudou ao passar dos anos quebrando estruturas rígidas e polarizadas, trazendo novos olhares e compreensão de um ser integral numa vida líquida da contemporaneidade.
E justamente por nossa integralidade enquanto seres humanos é impossível privilegiar alguns fatores em detrimento de outros para análise individual dos processos psicológicos de qualquer pessoa. Somos seres integrados com nosso corpo, mente e alma.
De uma forma simplista pode-se inferir que as informações do meio que chegam até uma pessoa são recepcionadas por seu corpo processadas por sua mente e sentidas em sua alma, o que da mesma forma podemos conceber o processo inverso para atribuição de suas respostas ao meio. Esse intercâmbio de informações que a pessoa faz é a ponte que precisamos atravessar para compreendermos os aspectos que interferem em sua saúde mental, sendo eles tanto externos quanto internos, criando energias que o norteiam como acordes de uma música que pode ser dissonante, tendo mais ruídos que afinação.
Por isso concordo com a frase da música Serra do Luar ao afirmar que:
“viver é afinar um instrumento, de dentro pra fora e de fora pra dentro”,
pois quando não se afina esse instrumento pode-se viver num ritmo totalmente fora de compasso entre o “eu” e a alma.
Nosso reconhecimento como indivíduos no ambiente familiar
Antes de nascer já é nos dado características próprias, herdadas da nossa família e meio, como os papéis que desempenhamos para a nossa identificação como pessoa dentro da sociedade. Inicialmente informações gerais pertinentes ao grupo social que nos são atribuídas sem questionar, como, por exemplo, a cultura; religião; orientação sexual. Porém, conforme o nosso desenvolvimento, essas características vão sendo confirmadas ao longo do tempo, ou, modificadas, num processo de identificação/rejeição com os outros indivíduos do nosso grupo.
E é por esse jogo das relações sociais que vamos permeando, criando nossa história e sendo criado por ela. É no seio dessa mediação social, influenciado por nossa condição sócio histórica, que nossa identidade se produz. Será a qualidade do valor atribuído pelas pessoas que se relacionam conosco que darão forma e sentido à nossa figura como indivíduo. Se em nossa socialização nos vemos como bom filho, bom aluno, bom amigo, entre outros, esses reforçadores terão maior propensão em manter e reproduzir esses papéis adquiridos.
Por sua vez, as relações sociais se modificam continuamente e por essa dinâmica alteram as práticas e costumes. Nessa nova dinâmica é preciso reconhecer quais crenças herdadas não são mais relevantes no nosso cotidiano, ajustando-nos à nova realidade sentida sem acarretar frustrações e angústias por não alcançar mais as expectativas que antes eram mantidas pelas crenças do nosso grupo de origem.
Ao longo da prática psicoterapêutica é comum verificar o quanto costumamos criar expectativas nos relacionamentos, projetando desejos e ideais que são apenas nossos. Resultado disso: futuramente questionamos a dinâmica do relacionamento quando essas expectativas iniciais não foram cumpridas. A partir daí o relacionamento torna-se insuportável, causando estressores que nos levam a relações de sofrimentos, justamente por estarem associados a um sistema individual de crenças inconsciente.
Quanto mais estivermos aprisionadas em nosso sistema de crenças em busca de pertencimento para auto afirmação de nossa identidade, maior poderá ser nossa dificuldades em modificar sentimentos em relação a outros significados que a conduza a relacionamentos saudáveis. Isto porque, aprisionados aos padrões de comportamentos que satisfazem os costumes e crenças apenas do nosso grupo de origem, não percebemos as nossas necessidades intrínsecas, nos mantendo assim presos num relacionamento tóxico por lealdade a nossa família.
Considerando a singularidade e a etapa de cada um em seu desenvolvimento individual, percebo que em muitos casos a pessoa permanece limitada ao problema sem conseguir mudar o cenário da vida e ressignificar o seu olhar, estagnada ou retroagindo ao problema mesmo a luz do processo terapêutico individual.
A família é o primeiro grupo que nos reconhecemos como pertencentes. Ela é a matriz de toda a forma originária de como nos relacionamos com o mundo. Por esse motivo é que o método em Constelação Familiar Sistêmica baseia sua prática nas relações familiares.
O impacto das leis sistêmicas na quebra de relações tóxicas
Segundo a visão da Constelação Familiar Sistêmica, todas as pessoas estão sujeitas a certas leis que regulam o amor de forma ecológica para que a vida flua em harmonia dentro dos grupos. Assim como as leis da física que não vimos porém sentimos os seus efeitos, por esse entendimento existem três leis que atuam indiscriminadamente nas relações denominadas Ordens do Amor, que são elas; hierarquia, pertencimento e equilíbrio. Quando não se respeitam essas leis surgem os conflitos, as disputas, os emaranhamentos, que podem perdurar por gerações dentro de um sistema familiar.
Muitas vezes quando alguém diverge dos costumes que regem um padrão de crenças e valores da família, é possível perceber o quanto isso gera emoções conflitantes e desarmônicas que podem causar até rupturas dessas relações dentro do sistema familiar. A pessoa deixa de ser convidada para reuniões familiares, deixam de falar sobre ela nos encontros e seu nome não é mais evocado, virando até mesmo um tabu entre os membros. São excluídos do seu sistema familiar por um dano causado, descumprindo assim a lei do pertencimento, gerando segredos e mágoas infindáveis que são carregadas por todos do sistema.
Quando não existe uma troca harmônica nos relacionamentos há dificuldade para que a energia do amor flua de forma saudável pelo descumprimento da ordem de equilíbrio no sistema, ocasionando um peso ou sofrimento indescritível na relação.
É necessário que aja retroalimentação entre o dar e receber. Quando se recebe algo há naturalmente a vontade de retribuir. Dessa forma se toma o que foi dado pelo agradecimento sincero e se retribui com um pouquinho mais, como um brinde que faz com que o outro o receba e deseje retribuir por sentir-se amado, retroalimentando o vínculo.
Mas atenção! A lei do equilíbrio entre o dar e receber pode acontecer tanto de forma positiva como negativa. Uma parte dá um afeto negativo e o outro retribui com um pouco mais de negativo, retroalimentando um vínculo de má qualidade que pode prender tanto quanto um vínculo saudável.
Por fim a lei da hierarquia nos convida a revisar qual o nosso lugar no mundo, se estamos ocupando nosso lugar ou o lugar de outro membro do nosso sistema. Muitas vezes ocupamos o papel social de outras pessoas sem ao menos nos dar conta, e com isso acumulamos funções e deixamos de viver verdadeiramente o lugar que nos pertence no mundo.
Isso acontece quando:
● entre irmãos, onde o mais novo ocupa o lugar do mais velho;
● entre pais e filhos quando o filho exerce a função dos pais;
● entre casais quando um está no lugar dos pais e não do parceiro; e assim em diante.
Uma coisa muito comum é as pessoas reclamarem que fazem tudo certo e mesmo assim não entendem porque a vida não flui surgindo impedimentos ou bloqueios nas áreas financeira, amorosa, profissional, etc. Se você ocupa o lugar errado dentro do seu sistema, pode ter dificuldades para encontrar o seu lugar na vida.
O benefício da Constelação Familiar Sistêmica no processo psicoterapêutico
Não devemos esquecer que herdamos da nossa árvore genealógica não só um código genético, mas também padrões emocionais que por vezes podem ser tóxicos para as pessoas e suas relações quando se estabelece uma repetição de comportamentos transgeracionais indesejados.
O método de intervenção terapêutica da Constelação Familiar Sistêmica nos permite contemplar essas imagens do inconsciente de forma breve, para se reconhecer uma dinâmica psicológica que, como vimos, não é lógica e nem linear. Quando identificados, tais padrões podem ser desativados de forma que emoções saudáveis voltem a fluir no sistema, trazendo maior confiança nas relações e prosperidade na vida.
Assim, é possível buscar soluções dentro da visão sistêmica que não foram alcançadas pela compreensão individual, e reconfigurar o equilíbrio emocional perdido em algum momento da história, preso num emaranhado de emoções que são transferidas de geração a geração, causando sintomas em forma de conflitos e bloqueios inconscientes que podem atuar por trás da dinâmica de relacionamentos tóxicos, dentro e fora da família.

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