Outro dia estava ouvindo o relato de uma paciente que está por volta dos seus 50 anos. É uma mulher totalmente independente, ainda que não ganhe muito dinheiro. Ela vive só, desde que se separou do marido. Não tem filhos. Sua rotina tem sido do trabalho para casa. Visita pouco a família, embora os laços familiares sejam fortes entre ela, os irmãos e os pais. Eles têm contato pelo whatsapp quase todo dia.
Nesse dia ela não havia dormido. Toda vez que começava a adormecer, o barulho da correria das crianças no andar de cima começava e ela acordava. Isso já vinha acontecendo há muitos meses, e o síndico já havia sido informado, assim como os próprios vizinhos, a ouviram reclamar da sua própria boca. A coisa continuava. E dessa vez ela estava muito enraivecida.
Isso não bastasse, os vizinhos de porta haviam escolhido o espaço em frente a sua porta, para permitir que a filha brincasse. Próxima a ela havia a porta desses vizinhos, e do outro a sogra de um dos elementos desse casal. Essa senhora idosa parecia ser a única capaz de diálogo. Todas as vezes que minha cliente chegava, ela precisava pular as bonecas e os brinquedos das crianças, porque a essa altura a criança já tinha chamado os amiguinhos. Eles haviam também, colocado do lado da sua porta e em frente à porta da minha cliente um porta guarda-chuvas. Na frente deles, outro vizinho iniciou um novo hábito: deixar os sapatos no tapete de entrada, antes de entrar em casa. Este casal com a criança aderiu.
Minha cliente também tinha uma vaga de garagem, que agora estava sendo usada sem consentimento.
Toda as providências com os porteiros e síndicos haviam sido tomadas, e com os vizinhos também.
Ela estava sem dormir direito, acuada em sua casa, intimidada como sendo a vizinha encruada e chata que só reclama.
Parecia que um coletivo inteiro havia liberado os hábitos de convívio num condomínio para viver da maneira que achavam justo e quem reclamasse era armadilhado na acusação de neurótico.
Ela já estava pensando em vender o imóvel e sair de lá.
Seu pai havia sido porteiro, e ela foi criada num condomínio, e sabiam bem quais era as normas de relacionamento dentro de um convívio de edifício.
Comecei a apontar para a direção que ela estava tomando dentro de si mesma. Impotência, desespero, tendia a ficar neurótica mesmo com tudo aquilo, viver enraivecida, e lutando pela justiça dos seus valores.
Ocorreu-me dizer que afrontar diretamente, continuar se opondo podia ser muito nocivo a ela. Ela vai polarizando e isso leva ao adoecimento. E indaguei se havia uma pequena possibilidade nela, de olhar a situação pelo lado oposto. Não pelo lado dos vizinhos. Pelo lado dela mesmo, mas na direção oposta. Se ela estava se intimidando, com muito incômodo, chamasse a criança para conhecer seu gatinho. E essa avó para comer bolo com café. Isso foi só uma dos exemplos que dei.
Esse convite abriu algo dentro dela, ela entendeu que estava se fechando. Se fechando em si mesma, na sua chateação.
Não fez nenhuma das coisas que sugeri. Mas naquele dia ela arrumou a casa, e decorou para o Natal. Sua família foi até lá. Sua sobrinha colocou música alta de caraoquê, foi um movimento todo diferente. Ela se sentiu dona do seu espaço de novo. E não uma mulher sozinha abandonada pela família em que os outros podem despejar suas projeções de recalque.
Naquela semana, o síndico resolveu a situação, e ela alugou a vaga de garagem.
Ela me perguntava na semana seguinte: “que mágica é essa”?
Não há mágica. A gente não controla os resultados dos acontecimentos. Pensamos que por haver regras aprendidas, elas serão óbvias para todos. Esquecemos que nada é exatamente óbvio. Mesmo que nos pareçam. Mas as regras estão aí para serem contempladas. Nós sabemos que elas evitam justamente essa série de desconfortos nas relações.
Naquela situação havia tanta coisa acontecendo. Uma avó que chegara a pouco do nordeste para morar ali, dificuldades talvez em onde a criança possa brincar.
Essa situação se abriu por que a minha cliente abriu um pequeno espaço dentro de si, deixando de lado uma posição aferrada a seu ponto de vista, favorecendo que as providências tomadas anteriormente com o sindico também se desenrolassem.
A Mágica é que ela colocou a energia em movimento. Ela empurrou a bola de cimento enorme diante da porta dela.
O famoso psiquiatra Jung, nos fala da importância do lado oposto de nós de mesmos.
Quando assumimos uma postura, ou conduta, ou comportamento de maneira muito contundente, polarizando somente de um lado, no nosso interior se constela o oposto. Parece que algo dentro de nós precisa se harmonizar. Encontrar um equilíbrio. E o inconsciente busca esse outro lado para contrapor dentro de nós mesmos.
Essa atitude polarizada gera uma tensão absurda dentro de nós.
Se reencontrarmos em nós aquilo que não está sendo visto, o outro ponto de vista, o outro comportamento possível, a brechinha necessária para recolocar as coisas em movimento, e por isso no lugar, não podem ocorrer.
É bem interessante, quando enxergamos isso em nós.
Ao emprestar uma imagem oposta ao seu comportamento, neste caso de receptividade aos vizinhos, doçura, e conversa com eles, aconchego, ela percebeu em si a postura mais endurecida que assumiu diante de si mesma, fazendo-a se sentir só e não respeitada. E partiu para amar a sua própria casa e sua própria vida. Isso lhe deu outra dimensão de possibilidade de resposta aos desafios do mundo.
Ela não precisou abrir mão de sua acertada reclamação. Afinal, as leis do bom convívio estão ali para serem respeitadas. Mas percebeu que por onde ela ia, haveria um enrijecimento e muita solidão.
Repare bem em você, quando vir ocorrendo uma atitude mais radical, um argumento com muita força, suspeite. Olhe para dentro de si e veja se lá, não existe um embrião de algo que aponta para outra direção.
Se abra para essa nova direção. Você vai fazer milagres em sua vida.
Por Claudia Leal,
Psicóloga Clínica.

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