burnout na área da saúde

Burnout entre os profissionais da área da saúde

Burnout ou Síndrome de Exaustão Profissional é o resultado da longa exposição ao estresse dentro do ambiente de trabalho, que leva ao desenvolvimento de sintomas como exaustão emocional, despersonalização e redução do compromisso profissional e portanto é uma síndrome que se relaciona muito com a satisfação profissional. Ao que se refere à exaustão emocional essa se dá pela falta de disposição para lidar com as situações do cotidiano do trabalho, enquanto que a despersonalização é uma atitude negativa de distanciamento e de cinismo em relação ao trabalho em geral, colegas e consumidores, no caso da área da saúde, os pacientes; e a redução no compromisso profissional que se dá através de uma autoavaliação negativa que o funcionário acaba tendo de si, o que diminui seu estímulo profissional e até desperta o desejo de sair daquele trabalho ou mudar de trabalho.  Essa síndrome é muito comum em todos os setores, mas dentro da área da saúde a incidência é muito alta e afeta não só ao profissional, mas também a instituição em que ele trabalha e a qualidade do serviço prestado aos pacientes. (Maslach e colegas, 1993, 1996; Penson e Dgnam, 2000; Morse, Salyers, Rollins, Monroe-De Vita, Pfahler,2012)

A Organização Mundial da Saúde diz que um ambiente de trabalho saudável é aquele em que os trabalhadores e os gestores colaboram para o uso de um processo de melhoria contínua da proteção e promoção da segurança, saúde e bem estar de todos os trabalhadores e para a sustentabilidade do ambiente de trabalho.

No entanto, os dados nos mostram que os casos de mortes causadas por algum fator relacionado ao trabalho, seja por doença ou por acidente de trabalho, foi de aproximadamente 2 milhões de mortes só no ano de 2000. Existem vários tipos de doenças relacionadas ao trabalho, e dentro desse setor 8% é burnout. Então, essa discussão sobre estresse no trabalho e burnout se faz muito necessária para que possamos trabalhar cada vez mais em direção ao que diz a OMS. (Portoghese, Galletta, Copolla, Finco, Campagna, 2014)

Burnout na área da saúde

Estudos demonstram que os riscos de desenvolvimento de burnout e estresse são eminentes dentro da área da saúde. (Lorenz, Benatti, Sabino, 2010; Lloyd, King, Chenoweth (2002). Um estudo publicou que aproximadamente um terço dos médicos oncologistas experienciam um significante grau de burnout na carreira (Shanafelt, Chung, White, Lyckholm, 2006). Um outro estudo que analisou uma série de pesquisas constatou que entre 21% e 67% dos profissionais que trabalham com saúde mental devem experienciar altos níveis de burnout (Morse, Salyers, Rollins, Monroe-De Vita, Pfahler,2012). Um dos motivos para esses números alarmantes é que apesar dessas profissões estimularem grandes satisfações e realizações, existe também o fato da longa exposição ao sofrimento alheio, além de inúmeras outras dificuldades no trabalho que esses profissionais enfrentam, principalmente no setor público aqui no Brasil, onde se sabe que a realidade tem uma demanda enorme e recursos limitadíssimos.

Frente a isso, vem se percebendo uma diminuição no número de profissionais migrando para da área da oncologia nos Estados Unidos, o que pode indicar uma tendência mundial e enfatizar a importância do desenvolvimento de políticas que cuidem do bem estar dos profissionais da saúde para que haja uma retenção desses profissionais. (Medland, Howard-Ruben, Whitaker, 2004)

Muitos estudos ainda são necessários para compreendermos melhor o burnout dentro da área da saúde. É preciso estudos mais profundos, com maior amostra populacional, assim como maior número de reproduções desses estudos, estudos transculturais, e também estudos longitudinais que permitem compreender melhor o fenômeno do burnout e seus efeitos, assim como os efeitos à longo prazo das medidas para remediar o burnout. (Morese, Saylers, Rollins, Monroe-De Vita, Pfahler, 2012; Back, Deignam, Potter, 2014)

Para melhor se compreender o fenômeno da exaustão profissional, alguns estudos estipularam seis áreas da vida no trabalho que são decisivos no desenvolvimento dessa síndrome. São elas: carga de trabalho administrável, controle sobre o trabalho, recompensas, comunidade, justiça, e valores. (Portoghese, Galletta, Coppola, Finco, Campagna, 2014) Outro estudo citou alguns fatores tidos como crucias para o bem estar e funcionamento de médicos expostos à grandes demandas de atendimento: cuidados pessoais, exercícios, senso de propósito, espiritualidade, e relações interpessoais de qualidade. (Back, Deignam, Potter, 2014)

Até o indivíduo alcançar um nível de estresse que se caracterize como a síndrome do burnout o profissional passa por um longo processo de acúmulo de estresse sem que haja uma compensação do organismo (homeostase), e como consequência esse organismo começa a sentir os impactos da rotina e adoece. O que ocorre é uma tendência do profissional a ignorar os sintomas e seguir em frente, pois a sensação causada pela grande demanda de trabalho é que o indivíduo não pode parar. Então, após longas horas de trabalho, sobra pouco tempo para reflexão, pouco tempo para cuidados pessoais e o dia seguinte logo se inicia na mesma intensidade.

 Quando a carga de trabalho se torna difícil de administrar, o profissional se percebe constantemente sem tempo para executar o trabalho e sempre em falta ou atrasado. Isso muito provavelmente acarretará em um estado de alerta constante nesse funcionário durante sua jornada de trabalho, e esse estado provavelmente se manterá fora do ambiente de trabalho, diminuindo a sensação de controle sobre o trabalho. O controle sobre o trabalho se refere ao profissional saber qual é a sua função, sua autoridade para tomar decisões, a expectativa dos supervisores e colegas sobre seu papel, e a sensação de capacidade de cumprir essa função. O que ocorre é que o funcionário que se encontra nessa situação de carga de trabalho elevada e sensação de pouco controle sobre o trabalho começa a se sentir desnorteado, respondendo as demandas uma após a outra como se estivesse ligado no piloto automático.

O reconhecimento financeiro e o reconhecimento dos supervisores e colegas também é normalmente limitado, muitas vezes por falta de recursos e por falta de hábito das organizações em parar para reconhecer os funcionários. Outra coisa que afeta na falta de reconhecimento é o desconhecimento dos colegas sobre as funções de cada profissional, gerando expectativas irreais uns sobre os outros causa de frustração na equipe em geral.

Um exemplo que espelha a questão do reconhecimento na área da saúde pode ser usado no caso dos assistentes sociais ou de psicólogos que trabalham dentro de equipes multidisciplinares e percebem que pouco ainda se sabe por parte dos colegas sobre a real função e capacidade desses serviços. É muito comum ouvir que as indicações para esses serviços ocorrem quando ninguém sabe mais o que fazer, resultando em indicações tardias ou inapropriadas. Também ocorre uma limitação na autonomia desses profissionais das áreas psicossociais, já que dentro da área da saúde o segmento dos tratamentos multidisciplinares seguem a linha médica e, seja por baixo recurso ( o que é um cenário mundial quando se fala em saúde pública) ou necessidade de rotatividade dos leitos hospitalares (que também é uma realidade), o fato é que  muitas vezes as questões psicossociais são tratadas como secundárias ou ignoradas.

Muitas organizações ainda dão pouquíssima atenção aos cuidados com seus funcionários que, devido as dificuldades do mercado de trabalho, permanecem trabalhando naquela instituição, mesmo que ela não divida dos mesmos valores, e que talvez não ofereça um ambiente justo, de igualdade de trabalho, e nenhum suporte ao profissional ou sua família. (Portoghese, Galletta, Coppola, Finco, Campagna, 2014)

Nesse acúmulo de situações estressantes e falta de tempo para os cuidados pessoais o profissional começa então por desenvolver um estado de falta de energia física e psíquica para lidar com as demandas cotidianas e vai se tornando mais tenso, ansioso, cínico, irritadiço e gradativamente vai perdendo a motivação em executar suas tarefas com excelência. O nível de exigência consigo vai diminuindo, afetando a qualidade de seu trabalho, aumentando o risco de um envolvimento com um acidente de trabalho, até que o profissional começa a se perceber inadequado e incapaz de executar aquela função, quando na maioria das vezes não se trata de incapacidade intelectual ou física, mas sim um desencontro entre o profissional e a posição exercida ou um profissional frente à condições de trabalho extremamente hostis. (Portoghese, Galletta, Coppola, Finco, Campagna, 2014)

Dois estudos feito com enfermeiros, um nos EUA e outro no Brasil mostraram que as relações interpessoais tem papel fundamental na forma de lidar com o burnout. Para os enfermeiros que já estavam esgotados, as relações interpessoais dentro do ambiente de trabalho geravam mais sofrimento, enquanto que os enfermeiros que não estavam esgotados atribuíam às relações interpessoais o fator amenizador do estresse do cotidiano. Vários outros estudos reforçam o potencial das relações interpessoais, tais como a prática de supervisões e do suporte dos colegas como protetores do bem estar dos profissionais. Esses dados revelam a importância de nutrir as relações entre os funcionários dentro do setor da saúde. (Lloyd, King, Chenoweth, 2002; Medland, Howard-Rubem, Whitaker, 2004; Lorenz, Benatti, Sabino, 2010; Back, Deignam, Potter, 2014)

As consequências do estado de burnout podem afetar não só o indivíduo, mas também a organização em que trabalha e seus pacientes.

-O profissional da saúde: as consequências podem vir como sentimento de incapacidade para lidar com pacientes complexos, desenvolvimento de transtornos mentais (depressão e ansiedade), dificuldades para dormir, hipertensão, distúrbios gastrointestinais, dores corporais, até o consumo excessivo de álcool e/ou outras substâncias tóxicas, como uma forma de se compensar ou de se automedicar.  

-A instituição: também é profundamente afetada, já que os funcionários que apresentam esse quadro começam a faltar constantemente, aumentam o risco de se envolverem em acidentes no trabalho, tem baixa produtividade, além da alta rotatividade de funcionários, o que gerará um custo adicional para a empresa desligar, recontratar e treinar novos funcionários. Então, não é lucrativo ter funcionários estressados caminhando para o burnout. (Morese, Saylers, Rollins, Monroe-De Vita, Pfahler, 2012)

– Os paciente: O que acontece é que muitos profissionais desenvolvem uma atitude de cinismo e distanciamento na forma de se relacionar com os pacientes, e com os colegas de trabalho, tratando a todos como se fossem objetos. Em um momento onde tem se enfatizado a importância da humanização dos tratamentos e dos profissionais, é preciso destacar que tais atitudes podem gerar um impacto negativo no tratamento, já que muitas vezes parte desse tratamento se dá também pelo relacionamento entre paciente e a equipe médica.  

O que os estudos vêm indicando é que a prevenção ao burnout é a forma mais econômica e eficaz para lidar com essa questão. Está se compreendendo que esse problema é  também parte das responsabilidades do local de trabalho, por isso que promover essas medidas de prevenção e redução ao burnout tem se tornando cada vez mais presente nas questões de gerenciamento das instituições de saúde.

Empresas no mundo todo estão desenvolvendo formas de prevenção ao burnout, como: divulgação de informações sobre atividades que ajudam a administrar o estresse cotidiano (psicoeducação sobre a importância do organismo se reequilibrar); práticas de meditação e  Mindfulness dentro local de trabalho; implementação de medidas de cuidados pessoais como parte da cultura da organização (estímulo a férias, ao descanso, a exercer atividades que promovam bem estar, promoção de retiros junto à equipe de trabalho); oferecimento de cursos complementares que ampliem o conhecimento e as habilidades dos profissionais e muitas outras.

Gostaria de mencionar o trabalho que coordenei na Austrália, um grupo de apoio, onde um espaço era oferecido mensalmente para as enfermeiras, médicos e assistentes sociais dividirem os momentos difíceis das últimas semanas, e ao final havia uma atividade de relaxamento para que esses profissionais se recompusessem para voltar as suas tarefas. Isso permitia aos profissionais dar vazão ao estresse acumulado, saber como os outros colegas estavam se sentindo, e trocar estratégias para lidar com as diferentes situações, além de oferecer maior coesão e sintonia entre os membros da equipe.

Uma outra forma de trabalhar com o burnout dentro das instituições de saúde é oferecer um acompanhamento profissional que pode fazer parte de um plano de carreira dos funcionários daquela instituições de saúde, principalmente aos jovens funcionários. Estudos apontam que as medidas que envolvem os profissionais e as empresas são as mais eficazes no combate e prevenção ao burnout (Medland, Howard-Rubem, Whitaker, 2004). Esse acompanhamento tem três metas principais, a primeira está em estabelecer metas profissionais e descobrir áreas de interesse para minimizar os riscos de uma contratação equivocada, oferecendo ao candidato a oportunidade de conhecer bem o que a posição de trabalho envolve e exige para que essa decisão seja tomada de maneira consciente; a segunda medida é de treinar os profissionais a identificarem os fatores estressores de seu trabalho e tentar direcionar esses estressores de uma maneira que o profissional possa administrar e focar nas suas funções, de repente delegar algumas dessas tarefas; e a terceira medida é de  encontrar um equilíbrio entre vida pessoal e profissional alinhado com seus valores de vida. (Shanafelt, Chung, White and Lyckholm, 2006)  

Embora as pesquisas ainda sejam muito restritas nesse tema, os estudos existentes indicam que ao criar serviços que respondam à demanda de estresse no trabalho e a síndrome de Burnout vêm tendo uma resposta positiva por parte dos profissionais, tornando-os mais produtivos, em maior sintonia com seus colegas, com disponibilidade interna para oferecer atendimentos mais humanizados, e o paciente recebe um atendimento mais acolhedor e eficiente. (Medland, Howard-Rubem, Whitaker, 2004).

Referências:

Back, A.L., Deignam, P. F., Potter, P.A. (2014) Compassion, Compassion Fatigue and Burnout: Keys Insights for Oncology Professionals. ASCO Educational Book. P.454-458.

Dias, S., Queirós, C., Carlotto, M.S. (2010) Síndrome de Burnout e fatores associados em profissionais da área da saúde: um estudo comparativo entre Brasil e Portugal. Aletheia. N.32, p 4-21.

Lloy, C., King. R., Chenoweth, L. (2002) Social work, stress and burnout: a review Journal of Mnetal Health. 11. 3. P 255-265.

Lorenz, V.R., Benatti, M.C.C., Sabino, M.O. (2010) Burnout e estresse em enfermeiros de um Hospital Universitário de Alta Complexidade. Revista Latino Americana de Enfermagem. Vol. 18. P.1-8.

Medlandd, J., Howard-Ruben, J., Whitaker, E. (2004). Fostering Psychosocial Wellness in Oncology Nurses: Adressing Burnout and Social Support in the Workplace. Oncology Nursing Forum. V.31 p. 47-54.

Morse, G.,Salyers, M.P., Rollins, A.L., Monroe-De Vita, M., Pfahler, C. (2012) Burnout in Mental Health Services: A Review of the Problem and Its Remediation. National Institute of Health. Vol 39(5) p. 341-352.

Portoghese, I., Galletta, M., Copolla, R.C., Finco, G., Campagna, M. (2014) Burnout and Workload among Health Care Workers: The Moderating Role of Job Control. Safety and Health at Work. Vol. 5 p. 152-157.

Shanafelt, T., Chung, H., White, H., Lyckholm, L.J. (2006) Shaping your carrer to maximize Personal Satisfaction in the Practice of Oncology. Journal of Clinical Oncology vol. 24 p.4020-4026.

www.who.int Ambientes de Trabalho Saudáveis: Um modelo para a ação: Para empregadores, trabalhadores, formuladores de políticas e profissionais. Sesi.


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