Acorda Alice! #Sóquenão!

O que fazer diante de situações que nos paralisam? Nem sempre nos sentimos preparados ou fortes para enfrentá-las. Porém, possuímos recursos que estão em nosso íntimo e que podem auxiliar-nos no enfrentamento dessas lutas diárias. Basta, para isso, entendermos sua importância e funcionamento para começarmos a acessá-los quando necessário.

Somos seres sensoriais e a nossa mente produz apenas imagens, símbolos. Quando pensamos criamos imagens e não conceitos ou palavras. Pensamos continuamente. Todas essas imagens são decodificadas pelo nosso cérebro a partir da percepção dos valores e significados que acompanham esses símbolos.

A partir de um olhar simbólico é possível analisar as representações que as imagens possuem em nossa vida e o peso delas sobre cada um de nós. Um símbolo é uma imagem que tem associado a ela um significado. Por isso, sua análise varia de acordo com o contexto, cultura e etnia. Inclui também o histórico pessoal, podendo assim ter várias representações num mesmo símbolo.

Alice no País das Maravilhas

Para falar do valor da introspecção e da intuição para o enfrentamento de problemas, escolhi analisar a personagem Alice do filme Alice no País das Maravilhas.

Alice é identificada por muitos como uma sonhadora. Ela foge da realidade e viaja num mundo de fantasias, de faz de conta. Por conta dessa imagem que muitas pessoas fazem da personagem, criou-se a frase “Acorda Alice!” usada quando se pretende tirar alguém desse estado de fantasia e trazê-la de volta à realidade.

Ao analisar a personagem do filme percebe-se que ela entrou nesse mundo de fantasias num momento crítico de sua vida. Alice se vê diante de uma situação que lhe é insuportável. Sem encontrar uma alternativa melhor que lhe seja menos dolorosa: aceitar se casar contra a sua vontade ou recusar e ser responsável pela falência financeira de sua família.

Nesse momento Alice se paralisa de medo. Ela busca refúgio no País das Maravilhas, um lugar de faz de conta que brincava quando criança na sua imaginação. Ao fazer isso ela se volta para dentro de si. Ela busca forças no seu íntimo através da introspecção. Contudo, para refletir sobre sua situação ela precisa estar conectada com a realidade e traz os elementos que dispõe em seu íntimo. Alice cria personagens representado seus anseios, emoções e desejos. Assim, passa a se relacionar com eles. Não dentro de uma realidade insuportável, mas num cenário seguro que possa lidar.

painel-sublimado-alice-pais-maravilhas-alice

Os personagens

Temos assim o chapeleiro que traz a representatividade da criatividade e originalidade, algo latente em sua personalidade. O coelho representando o tempo (a pressa) que ela tem para decidir e fazer sua escolha. O gato representando sua consciência que aparece e desaparece para orientá-la. Os gêmeos que trazem a representação dos polos que estão sempre em conflito, da ambivalência que convive dentro de nós. A rainha de Copas que representa a autoridade, que no momento para a Alice, é má e intransigente.

Forças para enfrentamento dos medos

E é dentro desse mundo fictício, vivendo essa aventura ilusória, que Alice se redescobre no País das Maravilhas. Ela cria forças para enfrentar seus medos. Através da Rainha de Copas e tantos outros personagens, ela passa a conhecer suas forças e fraquezas. Alice reage frente as adversidades, fortalecendo-se entre as lutas que trava nesse mundo imaginário. Lutas que representam as adversidades da vida. Elas são apresentadas, porém, de forma caricatural como num sonho. Os personagens são imagens oníricas que a acompanham. Eles simbolizam os problemas que todos enfrentamos no cotidiano da vida. Este cenário de fantasias é que irá ajuda-la na compreensão de suas necessidades e vontades. Ele irá fortalecê-la, auxiliando-a na tomada de decisão difícil, porém inevitável, de se casar ou não contra a sua vontade.

Quem somos?

Um fato interessante do filme é notar que o objetivo principal de Alice é provar a todos os seus amigos do país das Maravilhas que ela é a mesma criança que esteve anos atrás naquele lugar de fantasias. Para isso, Alice vive inúmeras aventuras tentando provar que ela é ela mesma. Eu me pergunto quantos de nós também não nos perdemos dentro das inúmeras identidades que vivemos, diante dos diversos papéis sociais que atuamos, e não nos reconhecemos mais ao longo da vida. Principalmente na fugacidade da vida contemporânea que nos atropela com toda a sua velocidade, com as exigências externas redobradas pela tecnologia que nos cobra imediaticidade. Podemos acabar sacrificando a qualidade do tempo daqueles momentos essenciais que temos para desfrutar da nossa valiosa companhia.

Com isso, esquecemos de quem somos, das nossas habilidades, das forças e fraquezas que nos constitui, das preferências e vontades que temos. Talvez isso aconteça simplesmente porque passamos a reagir diante da vida sem pensar, sem refletir, agindo automaticamente condicionados às necessidades externas do que as nossas necessidades internas. Quebrar esse automatismo significa refletir antes. Agir ao invés de somente reagir, para que as ações sejam condizentes ao que precisamos e desejamos, e não apenas respostas de um instinto reflexo.

Acorda Alice: o papel da introspecção

Vemos que nesse caso a fantasia serviu para Alice como um auxílio orientando-a na busca da melhor escolha para a sua vida. A partir de sua introspecção, guiada pela intuição das experiências que viveu anteriormente, Alice se reconecta consigo mesma e redescobre valores que estavam latentes em si, como a coragem, originalidade e criatividade. Dessa forma, sentindo-se mais fortalecida para enfrentar a sua realidade, Alice retorna e escolhe um caminho alternativo bom para todos: recusa o casamento e segue a profissão de navegador do pai para auxiliar financeiramente a família.

Por esse motivo, utilizando o recurso da intuição e da introspecção, venho na contramão da frase “Acorda Alice!” e respondo com #sóquenão!

ALICE IN WONDERLAND

Em nosso dia-a-dia podemos utilizar da mesma ferramenta que Alice. Podemos olhar para dentro de nós pela introspecção e ouvindo mais nossa intuição. A intuição nos serve como guia, orientando-nos a partir de experiências já vividas ou reconhecidas por nós, já a introspecção é o ato de tirar um tempo para reflexão se conectando com o seu íntimo, com o seu mundo interior.

A importância de analisar os pensamentos e emoções

Existem várias maneiras de se alcançar um estado introspectivo, cada pessoa tem a sua. Alguns conseguem de forma espontânea e natural, pois, sendo naturalmente introvertidas, já possuem em sua personalidade características que as auxiliam alcançar rapidamente esse estado. Pessoas com características extrovertidas podem necessitar de um estímulo ou técnicas que facilitem chegar á introspecção. O importante é saber utilizar esse caminho. Pois, analisando os seus pensamentos e emoções, você passa a conhecer melhor seus limites, com suas possibilidades e potencialidades, para agir em seu favor conforme os recursos que dispõe.

Principalmente diante de um desafio ou de uma escolha difícil que causam ansiedade e estresse, toldando ainda mais os sentidos que nos leva a conhecer e reconhecer o melhor caminho a seguir, a falta de introspecção pode vir a ser algo prejudicial para a saúde emocional, sendo fundamental quebrar as reações automáticas e avaliar cada pensamento e atitude, pois na maioria das vezes a resposta pode estar dentro de nós.


Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *