Psique em Prosa – Primórdios da Psicanálise

Cantos do nosso interior…

Como cantos do reino, onde habita Psique; às vezes como cantos do armário, onde se guarda a alma; cantinhos do coração, onde palpitam emoções. Forrados de ideias, a serem exploradas de muitos ângulos, para acolher o desafio de pensamentos cheios de arestas; espaços da sensibilidade, onde o aconchego inspirador abriga o inóspito opressivo, tudo iluminado de trevas e de sombras, vultos de nossas recordações.

Como cantos de mil vozes, que às vezes desafinam, corais que entoam nossa história, percorrendo uma escala tonal inteira, feita não só de momentos graves e agudos, mas de pausas necessárias, contracantos de enredos silenciosos. Sinfonias inacabadas de desejos sufocados, expressos num súbito fôlego nos jograis de nossos sonhos, furtivamente despertam ecos do que está presente, não se sabe bem aonde …

A vida tem ritmos tranquilos ou até alucinantes, pedindo composições feitas de esperança – sons em busca de uma partitura que transforme as cacofonias em melódicas pautas de entendimento.

Ah! Ouvir-se a si mesmo, como um maestro passionalmente entregue às possibilidades de inéditos arranjos e harmonias. Interiorizar-se, como ávido explorador que, no afã de penetrar nas profundezas do desconhecido, revela potencialidades, descobre recursos ocultos.

Há cantos pelos cantos e são tantos!

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  1. DEFINIÇÃO – (Rowell, 2017 http://www.freudpage.info/freudpsicodefinicao.html)

Psicanálise é o nome de:

  1. um procedimento para investigação de processos mentais, praticamente inacessíveis de outra forma, especialmente vivências internas e profundas como pensamentos, sentimentos, emoções, fantasias e sonhos;
  2. um método (baseado nessa investigação) para o tratamento das neuroses;
  3. um acúmulo sistemático de conhecimentos sobre a mente, obtidos através desse procedimento, que gradualmente está se tornando uma nova ciência.

 

II – Primórdios da Psicanálise – Rowell, 2018 http://www.freudpage.info/freudpsicohistorico.html

 

Breuer e Freud publicaram suas descobertas e teorias em Estudos sobre a Histeria (1895). Consideravam que os sintomas histéricos ocorriam quando um processo mental caracterizado por intensa carga de afeto ficava bloqueado, impossibilitado de expressão, através da via normal da consciência e dos movimentos. Esse afeto ‘estrangulado’ percorria vias inadequadas e derramava-se sobre a inervação somática (conversão).

Os autores afirmavam que esses sintomas, substitutos de processos mentais normais, tinham sentido e significado, sendo causados por desejos inconscientes e lembranças soterradas. Dado que essas ideias patogênicas, descritas como traumas psíquicos, eram oriundas de um passado remoto, as histéricas sofriam de ‘reminiscências’ que não tinham sido elaboradas.

A pedra angular dessa teoria era a hipótese da existência de processos mentais inconscientes, que seguem leis que não se aplicam ao pensamento consciente. Posteriormente, um entendimento mais aprofundado desses processos viria a esclarecer produções psicológicas previamente incompreensíveis, como é o caso dos sonhos.

A Regra Fundamental

Considerando a hipnose inadequada, Freud aprimorou os métodos de Breuer, baseado numa crescente compreensão clínica das neuroses. Ele percebeu que o êxito do tratamento dependia da relação paciente x médico, cabendo a este tornar consciente o inconsciente.

Desenvolveu-se uma relação inteiramente nova entre paciente e médico, a partir de uma mudança na técnica, e os surpreendentes resultados, assim obtidos, estenderam-se a muitas outras formas de neurose. Em 1896, Freud denominou esse procedimento de Psicanálise – a arte da interpretação.

Freud considerava que pensamentos perturbadores e anseios conflitantes eram mantidos inconscientes (repressão), mas mesmo assim causavam fortes sentimentos de culpa e intensa ansiedade, interferindo na atividade mental consciente, consumindo energia psíquica vital em busca de liberação. Por serem incompatíveis com os padrões normais do indivíduo, este se sentiria compelido a defender-se contra essas ideias intrusivas e a liberação desses impulsos, a fim de manter seu equilíbrio interno (mecanismos de defesa)

Como Freud acreditava na sobredeterminação dos eventos psíquicos, supondo que todas as lembranças estavam organizadas numa rede associativa, de forma que uma recordação levaria à outra, e considerando possível recuperar e compreender lembranças cruciais estando consciente, Freud insistia para seu paciente lhe dizer tudo que lhe ocorresse à mente (associação livre), a despeito de quão irrelevante ou potencialmente embaraçosa a ideia pudesse lhe parecer.

Ao entregar-se à sua própria atividade mental inconsciente (atenção flutuante), Freud acompanhava o fluxo inconsciente das produções mentais do paciente, a fim de estabelecer conexões entre o fio associativo das comunicações alusivas e as lembranças esquecidas.

Ocasionalmente, o paciente poderia omitir o material considerado absurdo, irrelevante e vivenciado como desagradável e precisamente essa lacuna na comunicação revelaria que a associação era evitada (resistência) devido ao seu potencial evocativo para trazer lembranças submersas à superfície da consciência, tornando emergente o significado oculto, previamente inacessível.

Freud notou que, na maioria dos seus pacientes, o material mais frequentemente reprimido estava relacionado às ideias perturbadoras referentes à sexualidade. Em 1897, percebeu que, ao invés de serem lembranças de acontecimentos reais, esses eventos eram resíduos de impulsos e desejos infantis (fantasias). E concluiu, portanto, que a ansiedade era consequência da libido reprimida, a qual encontrava expressão em vários sintomas.

Em contato com vivências internas, num estado de regressão, o analisando passava a se relacionar com o analista, como se este fosse uma figura do seu passado (transferência), frequentemente revivendo com grande intensidade emocional ‘eventos’ esquecidos de longa data.

Freud, então, comunicaria a ligação entre as fantasias e sentimentos do analisando pelo analista e a origem desses pensamentos e emoções nas experiências da infância do paciente (interpretação).

Essa intensa vivência dos conflitos originais era um processo doloroso para o paciente, mas a elaboração desse sofrimento emocional (insight) tornava o tratamento eficaz, devido a um novo equilíbrio e distribuição de energia psíquica, promovendo uma reorganização das estruturas psicológicas, com configurações mentais mais saudáveis.

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