Essa é a primeira crítica de série que escrevo e tenho que admitir que sempre fugi disso por ser difícil falar só de um episódio sem levar toda a obra em consideração. Por esse motivo escolhi falar de “Over” (S02E10), que é um episódio sensacional por si só, mas que também me fala muito sobre o que foi e se tornou Breaking Bad, seja no roteiro primoroso, seja na fotografia de brilhar os olhos. Neste episódio a câmera ainda treme muito, como é característica das primeiras temporadas, mas é em cenas como a do discurso de Skyler na festa, em que Walt está em foco, mas é Marie que ocupa grande parte do quadro, que vemos que as cenas que todos lembram da 5ª temporada como perfeitas já estavam presentes desde o início. Este quadro em específico nos mostra como a fotografia casa com o conflito escrito para Walter nesse episódio, sendo o mesmo vivido por todos os personagens: quero ser reconhecido por aquilo que sou, sejam essas coisas boas ou ruins.
Eu particularmente acho que às vezes a série acaba se apoiando demais em frases de efeito e cenas icônicas, mas “Over” inegavelmente entrega a profundidade que fez de Breaking Bad uma das melhores séries da história. É de consumir a alma ver as personagens olhando para o abismo, dentro delas mesmas, e no processo descobrir seus piores lados, seja na Skyler admitindo que está atraída pelo Ted Beneke e que não ficou feliz de verdade com a notícia sobre a remissão do câncer de Walt, seja no Jesse que tenta ser reconhecido como namorado de Jane e descobre que, para ela, ele não passa de um drogado que nunca apresentaria para o pai, ou seja mesmo no próprio Walter, que passa o episódio reformando as entranhas da casa, inventando motivos para fugir de admitir que quer ser reconhecido como o rei da metanfetamina que ele é . Mas se o selo que chamou tantas pessoas para ver a série são as frases e cenas icônicas, o Walt brigando com o Hank na piscina enquanto embebeda o próprio filho, e no fim do episódio ordenando “stay out of my territory”, certamente são uma bela prévia do que viria nas próximas três temporadas.
Breaking Bad e a Psicologia
“Procura-se o terapeuta para arranjar substitutivos para a vontade perdida, para conhecer a maneira como o inconsciente deve dirigir nossa vida, ou a técnica de condicionamento que capacite a pessoa a portar-se bem, ou a usar novas drogas que proporcionem uma razão para viver. Ou então aprender o último método de demonstrar afeto, sem perceber que afeto não é algo que se procure conquistar por si mesmo e sim um produto acessório da maneira como a pessoa se entrega a uma situação” (Rollo May em Eros e Repressão, p. 13)
Quis destacar essa frase, porque ilustra perfeitamente o que Walter White faz neste episódio: procurar substitutivos para a vontade perdida; reformar a casa, escondido no argumento de que quer o melhor para sua família, enquanto que sua vontade é continuar sendo o rei da metanfetamina, é ser seu “verdadeiro” eu, o Heisenberg.
Mas esse destaque não é só importante porque pauta a narrativa do episódio, e sim porque nos faz olhar para nós mesmos e todos os momentos em que nos empenhamos numa busca que lá no fundo é apenas uma fuga do que queremos de verdade. É necessário tomar cuidado e estar sempre atento para não cair nessas situações em que nossa busca está mal direcionada, em que buscamos o afeto como algo a ser conquistado e não enxergamos que o mesmo é uma consequências da forma como nos entregamos a cada situação da vida.
Ótimos exemplos disso são, tanto numa atitude conservadora de desejar constituir uma família, como numa atitude mais liberal de buscar o sexo, as formas de buscar por situações que simulem o sentimento do amor. Sendo que o problema não é a vontade de ser de ser amado, mas a sensação de que buscando situações que todos nos dizem que são a resposta para nossa felicidade, encontraremos o amor, que é acima de tudo uma consequência, e não um objetivo final.
Sobre isso o próprio Rollo May comenta que “é antigo e irônico hábito do ser humano correr mais rápido quando se sente perdido. Agarramo-nos com mais força e empenho a pesquisas, estatísticas e técnicas sexuais quando perdemos os valores e sentido do amor”

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