Não digo que “Era uma vez em… Hollywood” é meu Tarantino favorito, mas definitivamente é o que mais me tocou. Talvez por ser seu filme mais maduro e bem orquestrado, costurando as histórias das personagens principais (DiCaprio, Brad Pitt e Margot Robbie, ou Rick, Cliff e Sharon Tate) de uma forma que é difícil de perceber que os 3 quase nunca se encontram, muito provavelmente pela quantidade de cenas filmadas com grua, que nos colocam numa perspectiva de um Deus onisciente, que tudo vê e tudo “sabe” sobre o que ocorrerá na história.
Um dos pontos que faz deste um filme profundo é o contexto em que se passa a fábula: um mundo divido entre hippies e fadas sensatas que odeiam a polícia e os porcos fascistas, e homens que vivem com a cabeça de outra época e por serem bem sucedidos ou famosos tem a liberdade “poética” de matar usando um lança chamas sem nenhum problema. Enquanto isso, a única personagem que parece sensata é uma menina de 8 anos, o que nos faz questionar quem seríamos nessa história.
Mas este questionamento vêm desde o início, quando o personagem do Al Pacino afirma para Rick, “eu conheço você, assisti seus filmes. Eu amo aquele monte de tiros”. E daqui surge a questão central do filme: você não é o que eu espero que seja?, que acaba sendo a linha que costura toda a jornada dos personagens, seja no ator Rick Dalton, se questionando se é realmente um “ator”, seja no dublê Cliff, que é bonito e capaz demais para sua função, ou até mesmo na Sharon Tate com… bom, como nós esperamos que ela irá viver ou morrer. Mas a mais importante se dá na experiência do que é ver este filme, com o Tarantino se reinventando e nos perguntando o porquê é que esperamos determinadas coisas de seus filmes.
Essa reinvenção do diretor pode acabar sendo torturante para a audiência, que passa o tempo todo esperando as cenas comicamente sangrentas. Mas tudo acaba valendo a pena quando você escuta no cinema a catarse das pessoas rindo da forma como são mortos os membros da seita Manson e passa a se questionar se você estava esperando ou de fato desejando ver a morte de Sharon Tate em meio a todo o “clássico” sangue tarantinesco.
Era uma vez em… Hollywood e a Psicologia
Sobre a questão da violência presente em todos nós, que Era uma vez em… Hollywood traz à tona, acho importante enfatizar que seria fácil bradar frases simplistas como “o homem sempre foi assassino” ou “o desejo de explorar os outros está na natureza humana”, pelo fato das mesmas desconsiderarem a complexidade da história da destrutividade. No livro Anatomia da Destrutividade Humana, Erich Fromm tanto fala sobre esta parte da nossa história enquanto seres humanos, como destaca que, embora haja desde o homem pré-histórico um mínimo de destrutividade, que a crueldade e a destrutividade em massa, aparecem e se ampliam apenas quando a divisão do trabalho, o papel do poder e a necessidade de produtividade na civilização também se ampliam.
Particularmente, vejo que as raízes desses “mal entendidos” se encontram na dificuldade que encontramos em aceitar o outro, o que é diferente. Essas divisões, entre novos e velhos, homens e mulheres, esquerda e direita, hippies peludas e héteros top, muitas vezes facilita as frases fáceis sobre a inerência da violência no ser humano, porque depositamos no outro tudo que há de mal, toda a violência que existe no mundo, incluindo a parte mínima que existe em cada um de nós.
Achei difícil escrever esta crítica psicológica, porque a discussão sobre “em quem depositamos a culpa pelo mal na humanidade?” no fim das contas evoca o questionamento: como deveríamos agir para alcançar uma sociedade em que ninguém seja ameaçado? Sobre isso, o próprio Fromm afirma que “atingir esse objetivo é tremendamente difícil, por motivos econômicos, políticos, culturais e psicológicos – e mais pela dificuldade de que as nações cultuam ídolos – e ídolos diferentes – e, dessa forma, não se entendem umas às outras, embora compreendam as línguas umas das outras”.
Mas se há um caminho que tenho certeza que devemos seguir, é o caminho da saúde. E saúde tem a ver com aceitar, perceber e lidar com a realidade nos termos da realidade, por aquilo que a realidade é, ou seja, sem sermos exageradamente otimistas ou pessimistas. Digo isso porque todos os dias devemos acordar e lidar com a realidade, mas no fim do dia, o que nos resta é a “fé racional na capacidade do homem de desembaraçar-se do que parece ser a teia fatal das circunstâncias que ele próprio criou”.

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