Crianças são o futuro, a esperança. Crianças também são indisciplinadas. Crianças são ao mesmo tempo o sonho e o terror dos adultos. Crianças têm essa característica bem ambivalente mesmo. Elas estão presentes nos melhores filmes de comédia e de terror também. Há algo na criança que mexe com a gente, que faz a gente rir, e se assustar. A criança é a grande representação do potencial, ela pode se tornar tudo, e isso é uma ideia bem assustadora. Todo tipo de adulto já foi criança, o empresário de sucesso e o mendigo, o homem honrado e o político corrupto. A criança carrega todas essas possibilidades.
A criança perante a sociedade
A criança é uma noção construída socialmente. Há séculos atrás a criança era tratada como um pequeno adulto, que tinha uma série de responsabilidades, e também não era muito valorizada nos primeiros anos, era comum a criança “não vingar” e talvez por isso os adultos não se apegavam muito. Hoje uma criança perder a vida é algo bem ultrajante. A noção de infância e do brincar é historicamente recente. Já estamos até passando por um novo processo de mudança, no qual a infância está se encurtando e a adolescência se estendendo.
A criança e também o adolescente precoce estão tendo de tomar responsabilidades o quanto antes, não as do trabalho, mas comumente a dos estudos, da escolha de uma faculdade ou de uma carreira. Desde cedo se pergunta “o que você vai ser quando você crescer?” e a criança mesmo sem saber o que quer, mesmo desconhecendo todas as opções, sabe bem o que os adultos gostam de ouvir. A criança não tem muita capacidade de raciocínio lógico, mas tem muita sensibilidade emocional aos adultos.
A criança percebe aos poucos as insuficiências dos pais. Aquele pai que diz pra estudar, mas ele mesmo não estuda, ou aquela mãe que proíbe o filho de usar celular, mas não resiste em gastar horas nas próprias redes sociais. Os pais se mostram contraditórios, hipócritas até, e não sabem as respostas às questões mais importantes da criança e do adolescente, não sabem as respostas aos porquês. Na insuficiência dos pais a criança vê que o mundo é bem mais caótico do que os pais mostraram até então.
Na visão das crianças, quem são os pais?
Até nas séries de TV é perceptível que os pais não ocupam mais aquela posição de autoridade, de poder, de sabedoria, não ocupam mais aquela posição de quem sabe o que deve ser feito. Os Simpsons é o mais icônico e o que está no ar há mais tempo ainda produzindo episódios, essa série retrata um pai de família cheio de incompetências, falho, que não sabemos como consegue estar numa posição importante trabalhando com algo tão complexo como uma usina nuclear. A mãe, apesar de não ser tão incompetente também não é a mais brilhante. As relações familiares são conturbadas, conflituosas, mas no fim um sempre sai em busca do outro quando há problemas.
As crianças são o futuro e a esperança, assim como no seriado é a filha Lisa que se mostra como futuro promissor, como a intelectual da série, como aquele filho que pode dar certo no futuro. Há um bom motivo para o sucesso da série, ela mostra exatamente o que se pensa dos pais hoje em dia, se não dos próprios pais, dos pais dos nossos amigos e conhecidos. Os adultos não são mais aqueles que sabem o que fazer, porém eles continuam fazendo mesmo assim, e está funcionando.
Essa visão dos pais para com os filhos também é muito própria da realidade. Os pais vêm os filhos como esperança, como futuro, como aquele que vai ter tudo que ele não teve. O pai quer que o filho estude, porque ele não teve oportunidade, quer dar tudo que não teve ao filho, e quer que o filho faça tudo que ele não pôde. Porém essa expectativa é muitas vezes um peso enorme pro filho. E as percepções do filho não são as mesmas do pai. Obviamente aquilo que era muito valoroso na infância do pai não é mais valoroso hoje, e o que o pai tenta passar para o filho está em descompasso com as demandas que o filho apresenta hoje.
Qual a relação entre os pais da crianças e o pai (ou mãe) que ela será?
A criança vê a própria família falha, e também pensa em viver o oposto disso. É comum a criança de um lar segregado querer futuramente construir um lar mais unido, com uma grande família e reuniões calorosas. A criança que teve pouco tempo com os pais pode querer ser um adulto mais próximo dos filhos. A criança que teve poucos recursos materiais pode se tornar o adulto que quer dar tudo que não teve aos filhos. Nesse sentido, até a própria criança se vê como esperança também, esse é mais um peso para que nossos pequenos carreguem.
Só pais bem analisados e trabalhados na terapia conseguem amenizar essas disfunções na criança, já que livrar o filho de toda e qualquer neurose do pai é uma tarefa conclusivamente impossível. Está tudo bem ser um pai falho e ter suas incompetências. No final, nós adultos é que não somos muito diferentes das crianças, já que dentro de cada adulto há uma criança que vem de uma família cheia de falhas.

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