Para começar falando sobre relacionamentos abusivos, precisamos abrir uma discussão sobre violência, pois precisamos ter claro em nossas mentes que esse tipo de relacionamento consiste em uma forma de violência que muitas vezes passa despercebida.
Vou começar sendo portadora de más notícias: eu sinto muito lhe dizer, mas infelizmente você irá se deparar com a violência em algum momento de sua vida. Sim, você pode presenciar a violência, sofrer a violência ou ser aquele que pratica a violência (estar em uma posição em uma determinada situação, não exclui ocupar outra posição em outra situação).
Precisamos falar sobre violência, porque precisamos saber identificá-la. Precisamos saber quando estamos sofrendo a violência, quando estamos sendo violentos e quando estamos presenciando o outro sofrendo a violência.
Muitas vezes falamos sobre esse tema de maneira extremamente superficial, colocando a violência no lugar de tabu, o que faz com que não tenhamos ferramentas suficientes para lidar com esse tipo de situação.
A violência contra a mulher
Para exemplificar, basta pensarmos na questão da violência contra a mulher. Quantas vezes a mulher vítima de violência acaba tendo que viver novamente uma violência quando busca ajuda em instituições do Estado, na família, entre os amigos ou na sociedade no geral, muitas vezes sendo culpabilizada, desacreditada, exposta, etc. E o pior, muitas vezes essas pessoas que culpabilizam a vítima realmente acreditam que estão “ajudando”, quando na verdade estão aumentando o problema.
“Então o melhor é não tentar ajudar as pessoas que sofrem algum tipo de violência?”. Não. O melhor é falarmos sobre, buscarmos informações sobre o assunto (em fontes confiáveis), aprendermos, discutirmos, revermos nossas condutas diante da violência para que nossa atuação seja realmente satisfatória
Um dos maiores temas quando falamos sobre violência é a violência contra a mulher, sendo o relacionamento abusivo um dos temas que mais se destacam. Lembrando que o relacionamento abusivo não ocorre somente em situações em que a mulher é a vítima, mas na grande maioria dos casos, sim, o abusador é um homem e a vítima é uma mulher. Também é importante ressaltar que esse tipo de relacionamento não está somente nos relacionamentos amorosos, mas também em relacionamentos familiares, de amizade, de trabalho, etc.
Relacionamentos abusivos em foco
Nesse tipo de relação, uma das partes submete a outra pelo excesso de poder, dominando-a, fazendo com que a outra parte se sujeite às suas vontades. Há quem imagine que o relacionamento abusivo é caracterizado pela violência física, mas isso é um grande engano. Todas os tipos de violência podem estar presentes, até mesmo as violências mais “sutis”. Sabe aquela mulher que não pode sair de casa com uma roupa que o marido não gosta? E aquela sua amiga que não pode usar batom vermelho? E aquela sua colega que é constantemente humilhada pelos familiares? Ou até mesmo a sua prima que toda vez que vai terminar o relacionamento, o namorado abusivo diz para ela que vai se matar, vai fazer uma loucura caso ela siga em frente? “Você nunca vai achar alguém que goste de você como eu. Olha só para você.”. Você já conheceu alguém que teve que parar de conversar com os amigos por causa de um relacionamento? Viu? Aqui não estamos falando somente de violência física, há também violência moral, psicológica, sexual e patrimonial, entre outras, e isso é muito importante para identificarmos esse tipo de situação.
A vítima é “encurralada”, fazendo com que ela acredite que as situações de abuso são apenas “coisa de sua cabeça”, que está louca (o famoso gaslighting), fazendo com que ela se afaste de qualquer pessoa que possa alertá-la e protegê-la, e muitas vezes, quando a vítima tenta sair do relacionamento, o abusador encontra um jeito de prendê-la novamente com promessas de mudanças, flores, agrados, mas pouco depois tudo volta a ser do mesmo jeito). Esse tipo de relacionamento é extremamente reforçado pela sociedade, que pouco apoia a vítima: “ah que lindo, ele tem ciúmes de você”, “ah, mas ele faz isso por te amar muito”.
Entre várias consequências do relacionamento abusivo, podemos destacar: sentimento de culpa, vergonha, perda de consciência sobre a realidade, aumento da ansiedade, acreditar que não é capaz, baixa autoestima, etc. É necessário um trabalho específico com a vítima, fortalecendo sua autoestima, seu autoconhecimento e sua rede de apoio para que ela consiga quebrar com o ciclo da violência de maneira satisfatória, por isso a psicoterapia pode ser uma ferramenta bastante interessante contra esse tipo de abuso. Precisamos ter sempre em mente e relacionamento abusivo não é amor.

Deixe um comentário