Na situação atual de pandemia e isolamento social o sofrimento emocional de pessoas que tem algum tipo de obsessão ou compulsão está sendo maior. Esse texto objetiva fazer um esclarecimento para diminuir esse sofrimento.
Tudo começa na infância
Os livros de história, romances, literatura, os filmes que assistimos na TV e no cinema
há anos, descrevem situações onde estão presentes monstros, fantasmas e bruxas.
Desenhos animados despertam contextos ligados a super-heróis e histórias de
assombração. Crianças têm medo de monstros que ficam dentro do armário ou embaixo
da cama. Fomos acostumados a ver nossos personagens favoritos atravessar paredes
sem resistência, cair sem se machucar, ou andar sobre as águas, dando ao personagem e
ao mundo a possibilidade de fazer coisas irreais.
É comum, em enredos que envolvem o mar, aparecerem tempestades e monstros marinhos.
Podemos afirmar que desde criança aprendemos a conviver com fantasmas, sacis,
sereias, extraterrestres, vampiros, peixes voadores, bicho papão e tantos outros
personagens que fazem parte deste imaginário infantil. É dentro de contextos desde tipo
que desenvolvemos alguns tipos de medos, angústias, obsessões, compulsões, ansiedade
e inseguranças.
Muitos desses fatores, tais como, conflitos familiares, problemas conjugais, problemas
socioeconômicos, práticas educativas coercitivas e punitivas, problemas no desempenho
escolar, violência, exclusão social, familiares com comportamentos obsessivos compulsivos,
entre outros, são elementos de risco presentes na construção dos
transtornos de ansiedade desde a infância.
Podemos imaginar o sofrimento de pessoas que têm algum tipo de fobia, pânico ou
transtornos de ansiedade, bem como, antecipar o sofrimento dessas pessoas quando não
têm conhecimento do que está ocorrendo. No momento atual, de pandemia, verificamos
um aumento de comportamentos obsessivos/compulsivos, assim como de casos de
depressão. Com esse texto quero esclarecer algumas coisas que vão ajudar a diminuir
esse sofrimento.
O TOC
Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5): “O TOC
é caracterizado pela presença de obsessões e/ou compulsões. Obsessões são
pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes e persistentes que são vivenciados como
intrusivos e indesejados, enquanto compulsões são comportamentos repetitivos ou atos
mentais que um indivíduo se sente compelido a executar em resposta a uma obsessão ou
de acordo com regras que devem ser aplicadas rigidamente.”
Embora as obsessões e compulsões sejam vividas de forma muito individual, existem
sintomas muito comuns no TOC, por exemplo: rituais repetitivos, que podem muitas
vezes ocupar grande parte do dia trazendo consequências negativas para a vida pessoal,
preocupação excessiva com limpeza e higiene pessoal, acumulação, compulsões de
repetição, organização e contagem e transtorno de tricotilomania, que é o transtorno de
arrancar o cabelo.
A hipocondria
A Hipocondria, que é a preocupação constante com a possibilidade de ter ou vir a ter
uma doença grave, faz com que muitas pessoas tenham uma busca obsessiva por
informações e por consultas médicas para diagnosticar os sintomas que têm, e também a
levam a não ter confiança nos resultados de exames ou nos pareceres médicos, deixando
a pessoa em ansiedade crônica ou angústia por causa do seu estado de saúde.
Transtorno de acumulação
O transtorno de acumulação, de acordo com o DMS5 é “caracterizado pela dificuldade
persistente de descartar ou se desfazer de pertences, independentemente de seu valor
real, em consequência de uma forte percepção da necessidade de conservá-los e do
sofrimento associado ao seu descarte”.
Transtornos de obsessão e compulsão, conhecidos como TOC são um problema
psicológico que diz respeito a uma personalidade e à construção desta personalidade.
Embora a pessoa possa experimentar não prestar atenção aos seus pensamentos,
tentando por exemplo desviar a atenção para não repetir alguns comportamentos ou
tentar se envolver com outras coisas, ela não consegue. Mesmo prometendo para si
mesma mudar certos rituais, não acumular, relaxar na arrumação de um armário ou
gaveta, é difícil não seguir a ordem proposta anteriormente. Assim também, por mais
que deseje acreditar no laudo de exames e nos diagnósticos e tratamentos oferecidos
pela ciência a pessoa que sofre com a hipocondria não confia em tais resultados.
O que há em comum em obsessões e compulsões?
O que identificamos em comum em obsessões e compulsões, como as descritas
anteriormente, é o fato do Eu ou a Personalidade estar sempre em ameaça e na
impotência causando ansiedade. O mundo é um só mas se organiza de maneira diferente
para as pessoas. A organização do mundo é uma para quem tem medo de elevador,
lugares fechados e outra para quem não tem.
Para compreender como ocorrem esses fenômenos psicológicos, precisamos de um
trabalho psicoterapêutico científico, onde é possível descrever o sujeito em situação
inserido num contexto sociológico e antropológico, e verificar o movimento concreto
desse sujeito. Um ponto é o que a pessoa antecipa que vai lhe ocorrer se não seguir os
rituais pré-estabelecidos. Outra questão importante é a relação de identidade da situação
atual com a do passado, temos que identificar esse fenômeno psicológico e encontrar a
situação material de ameaça para localizar o que está ocorrendo. Também fundamental
é demarcar a gênese dos transtornos.
Sabemos que uma experiência emocional marcante tem a possibilidade de afetar uma
pessoa gerando nela a certeza de estar destinada a reviver indefinidamente essa
experiência face aos elementos que por relação de identidade ativam essa certeza ou
esse saber de ser. A psicoterapia vai levar o paciente a mudar esse saber de ser na
situação e mudar a forma de relação com os objetos da obsessão-compulsão.
Comportamentos obsessivos e compulsivos tendem a agravar-se quando não
devidamente tratados ou diante de situações estressantes. No cenário atual de pandemia,
onde muitas pessoas se encontram em sofrimento psicológico, a busca pela
compreensão do problema e a intervenção precoce são imperativos para a recuperação
emocional e a consequente regularidade emocional do indivíduo.
Claudia Holetz
Psicóloga
CRP 12/00567

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