Mecanismos de defesa. Como nossa mente se defende de verdades dolorosas_

Mecanismos de defesa. Como nossa mente se defende de verdades dolorosas.

Cada um alcança a verdade que é capaz de suportar.” Jacques Lacan.

Inicio o texto com essa frase marcante de Lacan, por ser realmente representativa no tema que pretendo discorrer: mecanismos de defesa.

Nossa estrutura psíquica é baseada em três grandes instâncias, que ao dinamizarem entre si, produzem expressões em formas de comportamentos, ações, falas, enfim, tudo o que se passa internamente. Essas instâncias são chamadas de ID, Ego e Superego.

ID, Ego e Superego

A grosso modo, podemos dizer que o Id é responsável por liderar nossas ações no sentido de nos satisfazer. É nosso impulso de desejo e o motivador que nos impulsiona a fazer tudo o que temos vontade. Entretanto, todos sabemos que se fizéssemos tudo o que temos vontade, o mundo seria bem diferente e, evidentemente, que uma liberalidade sem fim e limites, causariam, certamente, muitos problemas. Por isso existem as normas, leis, regras, que direcionam os comportamentos da sociedade. Internamente, em nossa estrutura, temos uma das instâncias que faz essa função de “legisladora” que é o Superego.

O que nos permite, agir, falar e nos relacionar com o mundo é uma terceira instância que é denominada Ego. O Ego tem a função de equilibrar esses impulsos provocados pelo ID e as normas impostas pelo Superego de maneira que nossos desejos sejam, sim, satisfeitos sem que, entretanto, infrinjamos as leis e normas sociais, por exemplo.

A essa altura você deve estar pensando num monte de exemplos de pessoas que agem desrespeitando ou simplesmente não considerando as regras sociais e dão vazão a seus desejos de maneira a satisfazê-los por completo, sem se preocupar.

De fato, isso existe e por trás desse tipo de comportamento tem uma série de desdobramentos, mas de maneira simplificada, em tese, o superego exerce sua função legisladora de maneira simbólica. Ou seja, a lei externa é importante, entretanto o que será mais significativo em sua relação com as outras duas instâncias e que, primordialmente, o que será considerado para aquela pessoa como noção de norma e lei, é o que lhe foi vivenciado, ensinado, aprendido e apreendido. E a partir desse modo a condução de sua vida social se constituirá.

Os mecanismos de defesa

Os mecanismos de defesas aparecem como um produto da interação dessas 3 instâncias, mais especificamente como uma expressão da instância mais primária, o ID, impulsionador dos desejos.

Dentre todos os mecanismos de defesa, temos:

Recalque ou repressão.

Surge do conflito entre o impulso dos desejos do Id e a imposição das normas e leis pelo Superego.  O mecanismo do recalque, bloqueia impulsos ameaçadores, desejos, pensamentos e sentimentos dolorosos, que possam proporcionar algum tipo de sofrimento ao sujeito ao chegar à consciência.

Negação

Trata-se em negar a realidade que se apresenta, simplesmente, agindo como se nada estivesse acontecendo ou substituindo por outra realidade fictícia, racionalizando um contexto adverso para encaixar na cena vivida.

Regressão

É uma fuga de situações conflitivas atuais, para um estágio anterior, em que experimentou uma sensação de segurança. Um exemplo é quando um adulto volta a um modelo infantil, no qual se sentia mais feliz.

Deslocamento

Atua na mudança de lugar de uma energia psíquica, deslocando a importância do fato corrente, de uma unidade para outra. Quando por exemplo a pessoa sente raiva do seu chefe, mas não podendo descarregá-la nele, por risco de lhe trazer grande prejuízo como, uma demissão. Dessa maneira desloca sua raiva para um ponto onde não há grandes riscos conscientemente como agressividade sobre o seu funcionário, amigo, animal de estimação, namorado(a) e etc.

A condensação

Vai possibilitar a união de dois ou mais elementos separados que tem uma afinidade.

Na condensação, para uma única representação pode conter uma série de significados trazidos pela cadeia associativa, que se cruzam ali.

Projeção

O sujeito projeta seus impulsos, sejam, agressivos, amorosos ou sexuais a um objeto no qual acredita ser um objeto com um potencial capacidade de realizar as expectativas nele projetadas.

Identificação

Ocorre quando o sujeito assimila as características dos outros (geralmente de pessoas que são modelos para esse sujeito). O sujeito deseja ter as mesmas características para si mesmo, buscando uma compreensão humana mais consistente.

Exemplo: crianças que possuem os mesmos comportamentos dos pais.

Sublimação

Podemos dizer que é um dos mecanismos que demonstra uma certa evolução da maneira dos impulsos, da energia psíquica se organizar. Consiste na mudança de direção da energia psíquica. Ou seja, um recalque, que retorna em outro objeto proporcionando ações como realizações culturais, por exemplo.

Freud considera a sublimação um mecanismo de defesa muito positivo para a sociedade, pois grande parte dos artistas, dos grandes cientistas, das grandes personalidades e dos grandes feitos só foram possíveis graças a esse mecanismo de defesa.

Formação reativa

Ocorre quando o sujeito sente o desejo de dizer ou fazer alguma coisa, mas faz o oposto. Assim, surge como defesa de reações temidas e a pessoa procura encobrir algo inaceitável, através da adoção de uma posição oposta. Quando uma pessoa que se comporta de maneira extremamente dócil, esconde por trás, um instinto extremamente violento.

Retorno agora à frase citada inicialmente: “Cada um alcança a verdade que é capaz de suportar”, de Jacques Lacan. Pura e simplesmente por tudo o que foi dito aqui, se o sujeito não estiver pronto para alcançar determinada verdade, por esta lhe proporcionar algum tipo de dor, sofrimento ou qualquer efeito que possa ser considerado como prejudicial ao sujeito, ao se deparar com ela, seu próprio esquema psíquico vai impedi-lo de acessá-la. Lançará mão de um mecanismo. E até que sua maturidade psíquica possibilite-o enxergar a verdade, verdadeiramente, essa pode estar escancarada à frente do sujeito, que ele próprio, protegido por sua estrutura psíquica, não verá ou perceberá, nada.

Fábio Bertacini.


Comentários

Uma resposta para “Mecanismos de defesa. Como nossa mente se defende de verdades dolorosas.”

  1. Avatar de Luiza Brito
    Luiza Brito

    Referências??

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