Monstros S.A. foi um dos filmes que mais assisti quando era criança, o que fez com que eu tenha decorado todas as falas de Mike e Sulley em sua saga para devolver Boo para seu lar e no caminho descobrir o que se passa por trás das cortinas da empresa que provê a cidade monstro com “energia de primeira”. Contudo, revendo recentemente, vejo como continua sendo o filme simples e infantil que eu lembrava, com um fim que emociona crianças e adultos, mas com questões sociais que antes eu não tinha bagagem pra compreender completamente, e com uma profundidade nos detalhes e na construção do mundo que só consigo sentir de verdade hoje.
Lembro que quando criança eu entendia que o Sr. Waternoose era um dos vilões junto de Randall, mas sinto que não compreendia completamente a gravidade de achar formas de burlar o sistema para conseguir lucrar na crise, e do quão errado é estar de acordo com uma máquina que suga a energia das crianças para potencializar os lucros. Eu não sabia o que é corrupção, e muito menos o que é viver em um mundo com uma crise iminente e com um medo generalizado causado pela possibilidade de ser infectado por uma nova criança (ou por um vírus…) que apareceu e virou o mundo de cabeça para baixo.
O filme em si é bem simples, se baseando no apelo de uma criança fofa e em estereótipos de comédia clássicos, como o gordo e o magro e perseguições bem Looney Tunes. Todavia, mesmo sendo um filme dito infantil, não consigo negar a profundidade e sutileza com que a Pixar mostra as fragilidades de um mundo em crise. Talvez o que mais tenha me marcado seja o fim agridoce que fica claro quando Mike dá de ombros dizendo “é claro que a gente mandou a fábrica pro vinagre e… centenas de monstros vão ficar desempregados, sem falar na multidão que vai linchar a gente quando não tiver mais energia. Mas… pelo menos a gente deu umas risadas né?”. A frase, assim como o filme, talvez pareça simplista e alienada, mas lida cirurgicamente sobre como mudar o sistema, encontrando a solução ao aceitar o diferente, ao enfrentar o monstro dos monstros, ao confiar no potencial das crianças, estimulando seu riso ao invés de controlá-las pelo medo.
Monstros S.A. e a psicologia
Já com relação à psicologia, lendo o livro Ludoterapia da Virginia Axline, me deparei com a seguinte frase que na hora me fez lembrar de Monstros S.A.: “Esta evidência é que impressiona a terapeuta – a força íntima do indivíduo para lutar contra seus problemas, sem ajuda do ambiente. Isto porém, não significa que uma mudança do ambiente deixe de ser, às vezes, desejável e valiosa. Indica apenas que a capacidade interior do indivíduo de ajustar-se às condições exteriores, que ele às vezes tem dificuldade em encarar, é muito maior do que usualmente se pensar ser”.
Destaco essa frase porque Ilustra perfeitamente o arco de Boo no filme, que já de início nos faz rir pela quebra de expectativa ao ver a capacidade da criança para lidar com um mundo de monstros, se divertindo e morrendo de rir, enquanto todos a sua volta entram em pânico. Além disso, no decorrer do filme torcemos e nos emocionados ao assistir como, ao conviver com Sully e Mike, ela passa a conseguir enfrentar e superar seus próprios monstros, como o medo de escuro ou de armários, personalizados nos filme por seu monstro Randall.
Agora, indo mais fundo no assunto Ludoterapia, chego de encontro ao que para mim é a questão central do filme: a descoberta de que o riso gera mais energia para a cidade do que o susto. Ao meu ver essa é a metáfora perfeita, tanto porque oferece uma perspectiva sobre como lidar com crises e comoções sociais em que não sabemos como agir diante de algo novo, como porque é perfeita para ilustrar os princípios básicos postulados por Virginia Axline sobre como tratar e lidar com uma criança. A autora descreve 8 princípios que devem orientar o psicólogo na forma de atender crianças, mas que para esta postagem podem ser resumidos em estabelecer as limitações necessárias para fundamentar a terapia no mundo da realidade, identificar os sentimentos da criança e refleti-los para ela, de forma que ela adquira conhecimento sobre seu comportamento, e de forma alguma tentar conduzir o bom comportamento da criança pelo medo, ou no caso do filme, sugando sua energia como era o plano de Randall com o catalizador de gritos.

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