Estamos passando por tempos críticos, de crise. E passar por uma crise nunca é fácil, mas podemos enxergar as oportunidades presentes.
É provável que quando você pense em alguma crise que viveu, haja algum retorno para uma memória de dor e desconforto no enfrentamento dela, mas algo possivelmente foi transformado depois desse episódio.
Você pode avaliar essa transformação como positiva ou não. Isso não muda o fato, no entanto, de que as crises, de forma mais ou menos forçada, tendem a nos impulsionar para mudanças.
Tempos de crise e a oportunidade de melhorar
É provável que a quarentena esteja mexendo com cada um que leia isso de uma forma diferente. Isso acontece porque vivemos em realidades objetivas e subjetivas muito diferentes.
Isso quer dizer que não há forma certa de se emocionar diante dessa situação, mas há uma pergunta em comum que podemos fazer a depender desse estado subjetivo: como queremos nos transformar depois dessa quarentena?
É fruto da nossa sociedade, pensar de forma fragmentada, na qual cada pessoa deve buscar seu próprio bem-estar, físico, emocional, financeiro, profissional e relacional.
Aprendemos a perguntar: o que eu posso fazer para melhorar?
Essa pergunta não está errada, ela nos faz buscar mudanças de comportamentos, hábitos e pensamentos. Não devemos negar a potência dessa possibilidade de transformação, mas devemos perceber que apenas esse individualismo carrega uma limitação.
Quanto mais nos fragmentamos e pluralizamos nossos interesses, menos nos reconhecemos enquanto uma classe, ou seja, um grupo de pessoas que compartilham uma pauta em comum.
Uma pauta em comum
A banalização das mortes, declarada por grandes empresários e políticas, evidencia que muitas vezes a própria vida das pessoas é considerada menos importante que a economia.
Por essa lógica, a saúde humana serve à economia, e não o contrário. Então, a gente acaba vivendo de uma forma que trabalhamos para o funcionamento do sistema, e não o contrário.
É claro que nesse momento é apenas o trabalho, muitas vezes informal, que pode garantir a sobrevivência de muitas pessoas. Por esse motivo, cobrar proteção social, através de políticas públicas, como direito básico do cidadão é essencial.
Tempos de crise pedem mudanças de hábitos
Desejamos uma sociedade que serve às pessoas e vice e versa, pois quando apenas há a “lei do lucro”, temos milhares de pessoas que morrem, literalmente. Cada pessoa deixa dezenas de dores, provocadas por sua ausência, pelo seu vazio, e não há dinheiro que substitua a falta de cada nome que se foi.
Essa triste leitura dos últimos acontecimentos é o que deve nos fazer perguntar: como podemos usar essa terrível sensação de tristeza e revolta como um potencializadora de nossa saúde mental? Por mais contraditório que pareça, são esses sentimentos que nos causam incômodo, que podem propiciar a transformação das coisas.
Pense bem, se você está em uma posição desconfortável, sua tendência não é mudar a postura para se sentir melhor? Nosso estado psíquico faz uma correlação com isso. Se não estamos confortáveis com nossa sociedade, precisamos “mudar de posição” para nos sentirmos melhor.
Tempos de crise
Se desejamos então, que o capital sirva às pessoas, precisamos lutar por um SUS fortalecido que ofereça suporte à saúde coletiva com qualidade, por políticas públicas de trabalho que garantam à estabilidade do trabalhador, por moradias com saneamento básico, políticas ambientais rigorosas, por acesso à educação e investimento em ciência. Precisamos lutar para que as formas de dominação sejam combatidas, tanto em raça, gênero, classe, orientação sexual, dentre tantos outros.
É claro que nos reconhecemos e nos diferenciamos de pessoas, grupos, posicionamentos, pautas e movimentos sociais o tempo todo. É importante reconhecer, no entanto, que unir forças e trabalhar para transformações é a nossa melhor saída.
Devemos buscar evidenciar que, por mais que as coisas estejam acontecendo de determinada forma, não quer dizer que é natural ou correto. Questionar o que está instituído é a base para que a gente viva, e não apenas sobreviva.
O aperfeiçoamento social
Nesse sentido, parece um passo importante retomar e fortalecer identidades coletivas que trabalhem para a transformação de um funcionamento social injusto.
Lembrar que você não está só, e se fortalecer no grupo de pares em prol de mudanças no mundo é uma experiência que pode auxiliar na retomada dos propósitos da própria existência porque é uma marca que se deixa no mundo.
É claro que isso não reduz a importância do ato de cuidar de si nesse momento, e se voltar para sua singularidade (do jeito que for possível: recorrer a laços afetivos online, melhorar o convívio familiar, cozinhar, meditar, fazer esportes, expressões artísticas, terapia etc). Se cuidar é essencial para que também haja energia para se lutar em prol de uma sociedade melhor, e inclusive, dar propósito à própria existência.
Isso quer dizer que podemos procurar protagonizar a nossa sociedade pelo pronome “nós”, assim como buscamos protagonizar nossas vidas pelo pronome “eu”. Um movimento não anula o outro, pelo contrário, eles se potencializam.
Queria deixar aqui a reflexão que não existe subjetividade sem a experiência da própria vida. Ora, mas a vida se faz no cotidiano à partir dos tecidos sociais: da família, da escola, do trabalho, da política, da religião, do território de habitação, etc.
Então, se nossa existência é fortemente constituída a partir da nossa sociedade, que trabalhemos juntos para uma sociedade melhor.

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