Imposições na pandemia

Imposições na pandemia e perspectivas para o cuidado de si

O ser humano é gregário! Como isso é perceptível durante a pandemia e a imposição de distanciamento social. Não tocar, não se aproximar, ficar em casa, usar máscara ao sair são, entre as obrigações para conter o contágio, as que mais afetam a sensibilidade individual. Após praticamente 4 meses, sentimos saudades de familiares e amigos, colegas e até de estranhos, com quem travamos contato no dia a dia pela rua.

De modo mais extremo, as pessoas que passam sozinhas a longa quarentena em casa, sentem a falta de ver alguém presencialmente e carecem de qualquer toque físico humano. É um período único de vida, desconhecido da imensa maioria das pessoas, desconhecido pelos coletivos sociais.

Os efeitos da pandemia no contexto social

A fim de dizer de que lugar (episteme) falo, afirmo que a construção do sujeito se dá em um coletivo, em uma família ou na falta dela. Em uma rua, uma casa, um bairro e seus aparelhos sociais, como escolas, SUS, igrejas, clubes, lideranças e seus poderes instituídos e impostos. A gente se forma como pessoa em um determinado contexto de valores e verdades sociais e pessoais.

A sociedade impõe uma normalidade e as regras de inclusão e exclusão. A gente aprende desde cedo o que pode, o que é proibido, o que as pessoas falam que é certo e o que elas na realidade fazem, como agem e como se relacionam entre si e com o sujeito da percepção, o eu.

O sofrimento psíquico é marcado pelas experiências no ambiente e as sensações afetivas nas interações pessoais e sociais. Destaco que o sofrimento é impresso no corpo (físico e psíquico) tanto pela repressão como pela permissividade, tanto pelas oportunidades como pelas carências, pelas diferenças e desigualdades sociais, como o racismo estrutural e o sexismo.

A constituição do sujeito se dá em um meio social, em um ambiente com seus valores morais, tradições e religiões, determinações econômicas e políticas, condições financeiras, discriminação por cor da pele, gênero, traços físicos e condições de saúde. Não nascemos iguais e não temos as mesmas condições para/de estar-no-mundo.

A pandemia revelando as diferenças sociais

Assim, a pandemia não é a mesma para todos, apesar do repetitivo ‘fique em casa’ e diante da responsabilidade de cada um de evitar o contágio, por si e pelo outro, até a desejada descoberta de uma vacina eficaz. Claro, se ela for acessível a todos. Sempre há uma esperança!

Nesse contexto, falemos em saúde mental, em um complexo psicossocial na clínica psicológica. Saúde não é um modelo prescritivo de bem-estar e equilíbrio. Saúde mental é o desejo de viver e e até o apego pela vida, pela racionalidade e pela afetividade. Ou seja, é a capacidade de compaixão e empatia, de sentir raiva e amor, de se perceber instável e falível.

Portanto, sentir medo de perder o controle e pensar em desistir, chegando até algumas vezes a sentir vontade de morrer, não é doença mental. Contudo, são sinais/alertas de que algo não vai bem e é bom pedir ajuda, seja em seu meio social, seja psicológica com profissionais habilitados. A desesperança e a esperança são dois lados da mesma moeda, é uma condição de ser humano.

No período atual a saúde mental engloba diversas coisas. O medo de pegar covid, a negação dessa possiblidade, sofrimento e enfrentamento a problemas financeiros e de relacionamentos, reinvenção do trabalho, contenção de despesas, aproximações afetivas. Ao olharmos tudo isso, é possível perceber que cada um segue com as suas ferramentas psi, suas possibilidades de cuidar de si.

A ajuda do profissional no enfrentamento dessas questões

De maneira ilustrativa, a minha experiência clínica, mesmo que diminuta, vem mostrando algumas semelhanças com a de outros profissionais psi. Destaco uma situação que se repete, nestes muitos dias de isolamento: a necessidade de aprofundar o autoconhecimento, deixar a superfície.

Cada um, sem aviso prévio ou consentimento, está com um espelho diante de si. É um período denso, com data de início e sem definição de quando vai abrandar ou mesmo terminar. Por isso esses tantos cuidados para evitar o contágio de doença grave e até mortal. Sem avisar, olhar para dentro de si se impõe, aproveitar esse movimento interno pode ampliar o autoconhecimento e a autonomia na gestão de si e de seu cotidiano.

Aí entra em ação como a psicologia clínica pode contribuir nesse processo. Fazer psicoterapia não nos faz melhores seres humanos, mas pode nos ajudar a nos aceitar como somos. Da mesma forma, nos ajuda a compreender e ter forças para modificar aquilo que atrapalha a capacidade de construir nosso cotidiano, o afeto e a racionalidade.

Uma pandemia mostra desequilíbrio ecológico, coisa esperada em meio humano, com superpopulação, desprezo pela própria espécie, destruição do meio ambiente. A tecnologia não trouxe sabedoria. Olhar para si mesmo em tempo de revisão do cotidiano é um caminho aberto para quem deseja trilhar o seu próprio desenvolvimento pessoal e social.


Comentários

Uma resposta para “Imposições na pandemia e perspectivas para o cuidado de si”

  1. Avatar de Tânia Aosani
    Tânia Aosani

    Eu adorei o texto, profundo na expressividade do que é humano. É muito bom poder ler um texto com esta qualidade psi. Parabéns Ana.

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