Sensibilidade à ansiedade

Sensibilidade à ansiedade: o que é e como lidar

Sentir ansiedade é algo recorrente quando precisamos entrar em contato com situações novas ou desconhecidas, sinalizando possibilidade de riscos ou perigos. Porém, mesmo sendo “normal” é uma experiência aversiva, por suas consequências fisiológicas (alterações no corpo) e comportamentais (alterações em nossas formas de pensar e agir). Por isso, experienciar esse sentimento com frequência ou alta intensidade pode comprometer a nossa saúde mental e, em certos casos, causar um medo de sentir novamente a ansiedade. Aqui vamos falar da “sensibilidade à ansiedade”.

Sensibilidade à ansiedade: conceituando

“Sensibilidade à ansiedade” é o termo utilizado para se referir à tendência de interpretar sensações que acompanham a ansiedade como se fossem indicadoras de doenças físicas. Conhecida como “o medo do medo”, essa sensibilidade é considerada como um fator de risco psicológico e, por isso, vêm sendo estudada na literatura sobre transtornos de ansiedade.

Assim, sintomas corporais próprios da ansiedade, como falta de ar, tremores, sudorese ou aceleração dos batimentos cardíacos são interpretados como sinais de perigo real ao corpo.

Essa sensibilidade às sensações corpóreas da ansiedade pode auxiliar no desenvolvimento de depressão, comportamentos hipocondríacos (medo de sentir dor ou uma maior probabilidade de procurar tratamentos para pequenos sintomas) e/ou transtornos de ansiedade (principalmente o transtorno de pânico).

Alguns estudos clínicos mostraram que a sensibilidade à ansiedade pode piorar em situações altamente estressantes ou melhorar em condições de tratamento. Porém, até 2019, na literatura cientifica ainda não é consensual se a sensibilidade à ansiedade está associada à gravidade dos sintomas de ansiedade ao longo do tempo.

Estudos clínicos da sensibilidade à ansiedade

O estudo de Hovenkamp-Hermelink (2019) responde algumas perguntas sobre essa condição, tentando entender a estabilidade da sensibilidade à ansiedade ao longo do tempo e suas associações com a gravidade dos sintomas de ansiedade. 2052 indivíduos com e sem ansiedade foram acompanhados por 2 anos do estudo.

Assim, os resultados mostraram que mudanças na sensibilidade à ansiedade estão relacionadas positivamente à diminuição dos sintomas de ansiedade (ou seja, com diminuição da sensibilidade, há diminuição da ansiedade) e, ao longo do tempo, essa diminuição pode significar um recurso adicional na prática clínica.

Contudo, a causa ainda não é definida, mas alguns estudos mostram que é provável que aconteça de forma recorrente na mesma família. Não somente por genética, mas também pelo modelo comportamental que os pais fornecem aos filhos. Imagine um exemplo, uma criança sente dor de cabeça logo após acordar e, imediatamente, os pais já a levam ao hospital, lhe fornecem remédio e cuidados especiais.

Entretanto, se repetida essa situação durante toda a sua infância, esse padrão comportamental dos pais vai ensinar: (i) a prestar atenção a qualquer mudança física em seu corpo; (ii) a entender que cada mudança física pode ser um perigo em potencial; (iii) a temer cada mudança física.

Guias no trabalho de investigação do psicólogo

Na clínica, a intervenção para a sensibilidade à ansiedade já apresentou evidências científicas pela terapia de exposição interoceptiva (com a exposição gradual aos sintomas que causam medo) ou pela psicoeducação (aprender a nomear, descrever e entender os sintomas).

Também já foi desenvolvido um instrumento para avaliação de sensibilidade à ansiedade, abarcando itens relacionados a preocupações físicas, mentais e sociais. Dessa forma, essa escala foi desenvolvida originalmente em língua inglesa (EUA) e já tem estudos psicométricos de tradução e validação em outras línguas, inclusive no Brasil.

Abaixo você pode conferir parte do conteúdo do instrumento traduzido para o português por Escocard (2007) da Escala de Sensibilidade à Ansiedade Revisada, mas cuidado: esses tópicos servem para guiar o trabalho de investigação do psicólogo, não podem ser interpretados por si só como diagnóstico, ok?

  • Ficar assustado quando sente: tremores, tontura, coração acelerado, náuseas, falta de ar,  falta de concentração, percepção alterada das coisas a sua volta, mal-estar, rubor, mãos dormentes;
  • Sentir medo de estar tendo uma doença séria quando sente: coração acelerado, estômago embrulhado ou dor no estômago, cabeça latejando, falta de concentração, diarreia, dor no peito, tontura, pensamentos acelerados, rosto dormente;
  • Medo de sufocar quando sente: que não está respirando direito, aperto no peito, dificuldade de engolir;
  • Medo do que outras pessoas vão pensar se apresentar algum desses comportamentos em público: demonstrar nervosismo, tremer, vomitar, demonstrar ansiedade, suar ou desmaiar;
  • Sensação de que alguma coisa ruim vai acontecer.

Fontes de Pesquisa

Escocard, M. R. P. G. (2007) Propriedades psicométricas da escala de sensibilidade à ansiedade revisada. Dissertação de Mestrado. Pontifícia Universidade Católica Do Rio De Janeiro.

Harvard Health Publishing. (2014) Anxiety sensitivity (Março de 2014). Recuperado em 14 de junho de 2020 de https://www.health.harvard.edu/newsletter_article/Anxiety_sensitivity

Hovenkamp-Hermelink, J. H. M., Van Der Veen, D. C., Oude Voshaar, R. C. et al. (2019) Anxiety sensitivity, its stability and longitudinal association with severity of anxiety symptoms. Sci Rep 9(4314), 1-7. https://doi.org/10.1038/s41598-019-39931-7

Rodriguez, B. F., Bruce, S. E., Pagano, M. E., Spencer, M. A., & Keller, M. B. (2004). Factor structure and stability of the Anxiety Sensitivity Index in a longitudinal study of anxiety disorder patients. Behaviour research and therapy, 42(1), 79–91. https://doi.org/10.1016/s0005-7967(03)00074-3

Imagem: Freepik.com – Foto criada por Dragana_Gordic


Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *