“[…] trabalhar não é tão só produzir: trabalhar é ainda viver junto.” (Christopher Dejours)
Vive-se hoje em um funil de transformações significativas no que se entende por trabalho, seja quando se trata das empresas, seja quando falamos do trabalhador; desde aqueles que ocupam os cargos de gerência e direção, até os que se ocupam da parte técnica na execução do trabalho.
As modificações pelas quais o conceito de trabalho vem passando provoca impactos no entendimento sobre o que é o trabalho e o que é necessário para obter e para avaliar o que é desempenho e melhorá-lo.
Desde os tempos antigos, o trabalho sempre ocupou uma posição de destaque na vida do homem. Na pré-história e também da história antiga, ele era considerado apenas como fonte de sobrevivência. Com o passar das décadas, outros valores e funções foram agregadas ao trabalho, modificando, em alguns aspectos, seu sentido.
Atualmente, o trabalho vincula-se também ao diversos outros sentidos, como o bem-estar, a autorrealização, fonte de prazer em realizar aquilo que o indivíduo gosta, bem como é um dos responsáveis pela construção da subjetividade das pessoas.
Para Dejours (2004), importante teórico da Psicodinâmica do Trabalho, a atividade laboral não é apenas a venda da força de trabalho em troca de remuneração para adquirir bens, mas sim se trata de uma atividade endereçada ao outro, uma vez que sempre se trabalha para alguém.
Para o funcionário de uma empresa, trabalha-se para seu chefe, para seus colegas, recebem-se ordens de superiores e, até mesmo, trabalha-se para o cliente. Para aquele que está em um cargo de gestor, trabalha-se para seus colaboradores, clientes e diretores e assim por diante. Além disso, o trabalho promove uma inserção social do indivíduo, uma vez que ele passa a sentir-se pertencente a grupos, à empresa a qual trabalha, a clubes, aos sindicatos, entre outros tanto lugares oferecidos pela própria condição de laço social.
Por essa razão, ou seja, por ocupar uma posição de extrema importância na vida das pessoas, é que o trabalho passa a ter uma relação intrínseca com a promoção, ou não, da saúde tanto física quanto mental do trabalhador; daí a estreita ligação da. saúde mental nas organizações.
Para a Organização Mundial da Saúde (OMS) saúde não significa mais, como antes se acreditava, na mera ausência de doenças. Entende-se que ela é um conjunto de fatores biológicos, psíquicos e sociais (bio-psico-social), ou seja, é “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”.
Logo, pensar que um funcionário de uma empresa, desde um colaborador, até um diretor, ou ainda um profissional liberal, tenha uma boa remuneração, encontra-se bem socialmente em termos materiais, apresenta uma boa condição física e biológica, é amparado por assistência médica, possui sucesso profissional, não é suficiente para concluir que este indivíduo está saudável.
A relação do homem com o trabalho nunca foi fácil, desde a etimologia da palavra, a qual denota algo difícil, penoso, indesejado, uma vez que é originária do latim “tripalium”, um instrumento romano de tortura. O início das preocupações com a saúde no trabalho estavam vinculadas apenas às questões e ajustes orgânicos e somáticos, tendo-se em vista o intenso sofrimento dos trabalhadores nas fábricas, em especial no início da Era Industrial.
Já após os anos 60, devido aos novos componentes agregados ao trabalho, principalmente com componentes psicopatológicos, que iniciou uma mudança no entendimento do sofrimento do trabalho. Nos anos 80, a Psicopatologia do Trabalho sistematizou e lançou o olhar ao sofrimento psicológico do trabalhador, aquele sofrimento que causa feridas invisíveis.
Para Dejours, a origem do sofrimento no trabalho não está única e exclusivamente relacionada ao ambiente e às pressões do trabalho, porém sofre influência e respaldo da história singular de toda pessoa, assim como da constituição psíquica e social que cada indivíduo apresenta e isso repercute no ambiente de trabalho de cada um, ao que autor denomina de “teatro do trabalho”, com os personagens (coordenador, supervisor, chefe, colega de trabalho), com o enredo (estrutura da empresa, cultura e clima organizacionais), o cenário (macroambiente social: desemprego instabilidade, incerteza) e ainda os espectadores (família, amigos), os quais ao mesmo tempo em que aplaudem e aprovam esse indivíduo, são também fontes de cobrança psíquica/emocional.
O mundo do trabalho contemporâneo é marcado por novos modelos de gestão em que, se por um lado pode auxiliar o homem em sua qualidade de vida, por outro promove sofrimento psíquico devido às intensas exigências, seja no cotidiano do trabalho ou em qualificações as quais são constantemente exigidas; seja pela pressão sofrida por aqueles que ocupam cargos de liderança, sempre com metas inatingíveis a serem cumpridas, sem contar que as relações de trabalho estão, devido ao intenso sofrimento psíquico dos indivíduos no ambiente de trabalho, permeadas por abusos e assédios morais.
Devido a isso, a essa “bola de neve”, em que aquele que sofre, acaba causando mais sofrimento aos seus colegas por estar também sofrendo, os trabalhadores sentem-se exigidos, sugados, desvalorizados, impotentes. Somam-se a isso, a estrutura emocional/psíquica de cada indivíduo que, em determinado momento, pode estar mais resistente a essas pressões, já em outros pode estar fragilizada e colocar em xeque o equilíbrio psíquico e a saúde mental do trabalhador, ocasionando muitas vezes traumas psíquicos de difícil superação e que podem impactar a vida profissional futura desse indivíduo.
Esse é o sofrimento patogênico destacado por Dejours, o qual surge quando todas as possibilidades de transformação da forma de gestão foram esgotadas, mas permaneceram as pressões fixas, repetitivas e rígidas.
Esse cenário promove intensos entraves às organizações, uma vez que podem ficar com intensa rotatividade de colaboradores; diversos funcionários afastados devido doença ocupacional; trabalhadores que acabam por realizarem suas funções de maneira inapropriada; uma gama de ações trabalhistas ou até mesmo de ficarem com o estigma de uma empresa ruim de se trabalhar.
Todavia, o trabalho, por ser mediador entre a saúde e a doença, pode também proporcionar e melhorar a saúde mental do trabalhador, quando as ações no trabalho são criativas e possibilitam uma reestruturação e modificação do sofrimento, aumentando a resistência psíquica dos colaboradores a problemas tanto físicos quanto emocionais.
Uma delas é o reconhecimento. Este está ligado à valorização do investimento, da dedicação e do esforço empregados para o bom andamento do trabalho. E não falamos apenas no reconhecimento que pode ser traduzido em aumento salarial e promoções na carreira, mas daquele reconhecimento pessoal, do acolhimento, do elogio, de pequenos benefícios que o colaborador pode receber por estar executando muito bem o seu trabalho.
Merlo (1999) destaca que o reconhecimento é uma das retribuições que a organização de trabalho, como um todo, oferece aos que nela trabalham, desde os gestores, até à equipe técnica.
Um ambiente de trabalho gratificante promove o fortalecimento dos laços sociais proporcionados pelo trabalho, com uma melhora nas relações de trabalho, na produtividade dos colaboradores, proporciona a transformação do afeto negativo colocado sobre o trabalho, como algo penoso, para um afeto de harmonia e equilíbrio, bem como pode haver a diminuição de doenças orgânicas, do absenteísmo, impactando os alcances e produtividade da organização, além de colaborar para a saúde integral do ser-humano, ou seja, o bem estar bio-psico-social.
Apesar do baixo índice de cuidados com saúde mental nas organizações destacam-se exemplos de organizações que têm aplicado medidas de cuidado e promoção à saúde mental de seu colaborador, exemplos estes que podem e devem ser seguidos pelas empresas que desejam sustentar-se no mercado com os melhores talentos de corporações, entre as quais: Unilever; PortoNave; Mercer Marsh; e ainda outras tantas que oferecem atendimento psicológico online aos seus colaboradores por meio de parcerias com a plataforma Vittude, como a 99; Centauro; Positivo; Imovelweb; entre outras.
Cuidar da saúde mental nas organizações é cuidar de todo o organismo corporativo, o qual, por ser um organismo, deve estar em uma situação de bem-estar em todos seus aspectos para que possa funcionar com o mínimo de prejuízo.
REFERÊNCIAS:
Dejours, C. (2004). Subjetividade, trabalho e ação. Revista Produção, 14 (3), 27-34.
Merlo, A. R. C. (1999). A Informática no Brasil: prazer e sofrimento no trabalho. Porto Alegre: Ed. Universidade UFRGS

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